domingo, 19 outubro 2008 02:00

A nossa Língua floresce na Galiza

Concha Rousia 

Concha Rousia

A mim surpreendeu-me ver aquele homem de fato preto, camisa branca e laço de perfeito nó, que até me fez pensar num amigo que hoje não podia estar presente. O homem estava lá perto da entrada de São Domingos de Bonaval, sob uma chuva que não molhava seu incombustível cigarro. Olhei para ele, para a sua elegância que até a chuva, que a mim molhava, nele respeitava. Era uma manhã de pequenas pingadinhas a virem dar ao dia aquela sua prestância de galego. Sorri ao ver que até o tempo queria ‘ser’ connosco.

Ele reparou em que eu o via, e disse-me que estava já para entrar, que saíra apenas para ver a gente chegar, como nas romarias dalgum tempo... Eu aproveitei para lhe dizer que aguardava entendesse o nós termos depositado a coroa de loureiro aos pés de Rosalia; e ele disse-me que ele próprio a teria mudado para esse lugar se a nós tivéssemos deixado noutro.

Entramos, ele foi-se colocar lá à direita da coroa justo detrás do lugar que ia ocupar Martinho, o presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa. E lá, de olhos bem abertos, permaneceu enquanto Martinho pronunciava o seu breve e intenso discurso para mostrar os devidos respeitos aos nossos antepassados; depois vi como fechava o seu imortal olhar quando soou a música de Eduardo Baamonde, Servando Barreiro e José Luís do Pico... 

Acabada a oferenda, e logo dos parabéns a Martinho, toda a gente se foi dirigindo ao Centro Galego de Arte Contemporânea, onde iam começar as intervenções dos oradores que hoje nos honravam com sua presença. Eu busquei-o para me despedir, pensando que iria ficar lá no seu lugar entre os galegos ilustres de Bonaval, quando o vejo encaminhando-se para a saída. Com minha olhada interroguei-o, mesmo sem querer; mas como imaginava eu que ele ia ficar, se viera para estar connosco, e lá onde nós formos ele iria...? Eu entendi isso bem.

Foi então que confessou ter gostado mesmo de como se tinha feito a oferenda, sem essas intensas luzes e câmaras das televisões, com os seus micros e cabos e gente a ordenar em tudo... Na intimidade da penumbra, tudo ficara hoje mais solene; depois pensei que me ia perguntar que como fora para a TVG não ter aparecido, que cada vez que espirra um jogador de bola vão lá sete câmaras a gravar... mas olhou-me e não perguntou, não perguntou porque sabia como eu me ia sentir. E eu agradeci aquele seu silêncio... vi que compreendia que na Galiza terrenal algumas cousas continuavam como noutros tempos, ou pior até...

Caminhamos juntos, embora a gente me visse a mim sozinha, com as minhas roupas negras, apropriadas para o lugar no que estávamos... eu não me podia vestir de nenhuma outra cor, nunca antes participara numa oferenda aos nossos ilustres antepassados... Sentia-me feliz de tão honrosa companhia, mas asinha o perdi de vista, e julguei que ao ver a quantidade de gente teria mudado de ideia, e teria voltado para o panteão. Uma doce saudade se quis pousar em mim mas olhando para o painel de oradores a saudade desapareceu a escape; no seu lugar veio uma leve preocupação polo que hoje se iria dizer e não dizer, tingida pola esperança ao ver um público efervescente, a abrir os exemplares do primeiro Boletim da Academia que lhes fora oferecido ao entrarem.

Sentei-me na primeira bancada, reservada para académicos e académicas e algum convidado que pediu se lhe reservasse um lugar na primeira fila, senti mágoa por não ver o meu interlocutor de antes entre nós. 

As palavras do Ângelo inauguraram a palestra, falou como o sereno anfitrião que ele é; dando as bem-vindas a todas e todos e continuou com a apresentação dos oradores.

O primeiro em falar foi João Craveirinha, um escritor a quem tenho a honra de contar entre os amigos. Com ele chegou a nós a força do abraço, não só de Moçambique, mas sim da África inteira que a nossa fala entende. Foi breve, generoso com o tempo e as palavras, não esqueceu que estava ante um povo colonizado; sabendo ele o que isso é soube se pôr no nosso lugar. Obrigada.

O seguinte na palavra foi o Professor Malaca Casteleiro da Academia de Ciências de Lisboa; amigo a quem todos conhecemos, respeitamos, e sentimos cercano, e se me permitem dizer, nosso; nem precisa dizer muita cousa para todos e todas sentirmos o calor de seu apoio. Portugal hoje estava bem representado. A seguir falou Artur Anselmo, Vice-Presidente da Classe de Letras da Academia de Ciências de Lisboa, que nos ofereceu as, por nós desconhecidas, palavras de Agostinho da Silva, palavras que ele denominou de proféticas para a Galiza e os galegos. Talvez a algumas pessoas lhes pareça que a sua mensagem pode levar-nos é a pastorear sonhos; mas nem que assim fosse nós agradecemos... agradecemos porque temos demasiada gente à nossa volta a querer-nos fazer cair em pesadelos horríveis. As palavras de Agostinho da Silva são testemunha do que foi a Galiza como povo, e quem vai ser, quem ainda a Galiza é... mesmo que muita gente fique adormecida a aguardar por um sonho que os faça acordar, porque é só dos sonhos que se acorda.

Também de Portugal, Carlos Reis, Reitor da Universidade Aberta, a quem alguns de nós tivéramos a fortuna de ouvir falar o passado 7 de Abril na Assembleia da República Portuguesa em defesa do Novo Acordo Ortográfico, e fora também esse acordo o que levara a Delegação Galega a Lisboa... Aquele dia na grande sala da Câmara da Republica eu me sentira mais distante dele, talvez por ser a primeira vez que eu estava lá, e aquilo me impressionava; ou talvez porque Carlos Reis falara fundamentalmente para portugueses; mas hoje em Compostela falava para nós, para os galegos e galegas e falava também para Guerra da Cal, amigo e mestre que sementou nele os sonhos da Galiza galega.

Ângelo, com o seu firme sigilo, deu a seguir a palavra a Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras e grande amigo da Galiza. Pouco precisa ele dizer para comunicar que fica e ficará do nosso lado. Depois falou para defender o Novo Acordo Ortográfico das críticas ultrajantes que se levam vertido... Ele, com o seu tolerante talante foi desmontando as fachadas daquelas aparentes críticas, mostrando logo que todas careciam de fundamento. E do Brasil passamos à Galiza, e atrás do professor Bechara falou Xoán Antón Perez-Lema, secretário Geral de Relações Institucionais da Vice-presidência da Junta da Galiza. Difícil encontrar palavras que transmitam a força que senti sair de sua mensagem...

Por primeira vez em muito tempo, talvez por primeira vez desde que temos governo na Galiza, sentimos, acho que maioritariamente, que tínhamos ante nós o nosso representante... que se importava por nós, se importava pola Galiza a que não podemos deixar sumir na Ibéria Hispanófona. Perez-Lema falou duma Galiza que encontrará o seu lugar na Lusofonia, onde poder ser o pais que ela é. Eu olhei para trás por um instante, queria talvez comprovar que nos rostos das demais pessoas havia a mesma luz que eu sentia na minha... E qual não seria a minha surpresa ao ver de novo ao amigo que eu julgara ido para o seu lugar de pedra em Bonaval. Lá estava de pé entre o público, com sua elegância e seu cigarro, ainda bem que ninguém parecia ver o fume... Foi ai que reparei que não estava sozinho, como ele havia mais gente que eu não tive tempo de reconhecer, não podia ficar a olhar para trás; e não foi até que falou Martinho que eu pude ver quem eram os outros que estavam com ele...

Martinho, o primeiro presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa, procedeu com seu discurso... os agradecimentos, os propósitos, e o percurso histórico... foi citando aos nossos predecessores que muito deram pola nossa Terra, alguns mesmo a vida... e foi lendo palavras deles, todas tentaram acercar a Galiza à Lusofonia, ao lugar de seu; com cada geração nos tínhamos acercado mais um bocadinho, embora a situação dentro da nossa Terra não tenha melhorado muito. E aqui estava mais um passo, a AGLP é mais um passo, definitivo sim, mas um que precisou de todos os anteriores... precisou de Rosalia, de Murguia, de Risco, de Otero Pedrayo, de Pondal, de Castelao, de Carvalho Calero, de Marinhas, de Lapa, de Guerra da Cal... Martinho foi lendo citas de cada um deles e eu, olhando de esguelho, vi como, à vez que Martinho citava as suas palavras eles as falavam, num acto de reafirmação... depois começaram a debater entre eles sobre o que teria sido se tivessem podido seguir adiante com a Primeira Academia concebida... a que presidiria Murguia, e levaria a Galiza à Lusofonia em pouco tempo... Porque eles viam que desde aqueles tempos se leva andado muito por caminhos errados...

Mas o de hoje era um passo no que Galiza se aproximava de si própria; um passo na direção da Galiza; um passo na direção contrária da “Galicia”, porque dizer “Galicia” é uma forma de não dizer eu sou, e hoje nós queremos é ser, e somos Galiza. O discurso de Martinho foi, de todos os pontos de vista, impecável; todos e todas estávamos com ele, e eu acho que por um momento se parou o tempo... Martinho calou e falaram as palmas prolongadamente... A sala inteira pôs-se em pé.

Atrás das intervenções da manhã veio uma pausa para o café, os saúdos aos presentes, os apertos de mãos, as trocas de endereços electrónicos, os cartões...

Depois veio o silêncio, um silêncio no que Isabel Rei desenhou com as cordas da sua amiga, a guitarra, a beleza do nosso sonho... Deu-la-deu, a suite para guitarra que Rudesindo Soutelo criou e dedicou à AGLP. As imagens saltavam das cordas, que magicamente tangia a Isabel, para as nossas mentes... Primeiro o desassossego do assédio à fortaleza seguido da fome que impinge a rendição, e logo a oferta de pães ao inimigo, que levou a desistência do cerco, para finalmente nos elevar com o triunfo incruento da estratégia.

Todos nos deixamos levar pola música, sentindo a força do abraço da união dos nossos hinos. Rudesindo, Isabel, e a Guitarra, ocupavam agora o centro do cenário para serem eles a receber a retribuição do público por sua arte... Finalmente Isabel nos presenteou com sua interpretação de três obras inéditas de Marcial Valladares. Antes de rematar a manhã cantamos, acompanhados pola gaita e a percussão, o nosso hino; brasileiros, portugueses e africanos, acompanhavam lendo as palavras de Pondal nas páginas do Boletim da AGLP. Só eram as duas e meia e o dia já estava ganho... mas ainda havia mais...

O jantar foi no Dezasseis, um número incerto, entre sessenta e setenta pessoas, foi ocupando o andar de acima que o restaurante tinha reservado para nós. Todo disposto aguardou a nossa ordem para começar, tudo a seu tempo... e a frase no ar “pedi o que desejeis”. Começando pola empanada da casa, os pimentos de Padrão, o revolto de cogumelos, o polvo à grelha... o vinho Ribeiro e Mencia a fartura, depois o bacalhau e a carne, a doce sobremesa, o licor de cafe, de ervas... e a conversa; todo envolto na conversa... algumas ausências involuntárias e muito sentidas, alguma outra voluntária e insuficientemente notável como para ser sentida, não nesse dia. O Dezasseis hoje convertera-se na nossa casa, até me fez lembrar daqueles casamentos que se faziam nas aldeias, onde todos os convidados, mesmo os que não eram conhecidos, e vinham de outras partes, eram queridos...

O café veio às pressas porque as portas do Reitorado iam ser abertas para nós. Elias Torres ilustrou-nos sobre a história e os tesouros de Fonseca, que passa para mim a ser real, e deixa de ser para sempre uma canção da tuna universitária. O final da visita deixou-nos nos cómodos e moles assentos da sala nobre do reitorado, onde os sonhos irremediavelmente, dada hora e o cansaço, se trançaram com as vozes dos poetas: Pedro Casteleiro, Irene Veiga, Celso Alvarez Cáccamo, Mário Herrero, José Manuel Barbosa, Artur Alonso Novelhe, João de Bonaval, Alberte Corral, e eu, Concha Rousia. A poesia nos fez, mais uma vez, lembrar que nós vimos de longe, e estamos cansados, sim estamos algo cansados, mas rendidos não estamos. Depois de ler as palavras dos nossos antepassados poetas, lemos cada um de nós um poema de nossa autoria; e lemos também um de Rui Mendes e outro de Belém de Andrade, que não podendo estar presentes pediram, se possível, ser lidos.

Agora tínhamos uma hora livre; alguns foram até ao hotel, outros até à Gentalha do Pichel. Eu fui a casa buscar a minha filha. Ângelo foi buscar sua família para a ceia na que íamos homenagear três queridos professores; Artur Anselmo, Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara.

Mas antes da ceia vieram as canções do Orfeão “Terra a nossa”, eu cheguei com Nerea quando soava a Negra Sombra, ouvimos desde o corredor lateral, aguardando as palmas para entrar. Estava ateste, apenas uns assentos livres nas últimas bancadas. Logo veio mais música galega e portuguesa, uma peça de João Trillo, e peças brasileiras, eu adorei como se ouviu o Samba, e logo mais música galega... Da praça de Maçarelos, onde se encontra a Igreja da Universidade, que se não dedica ao culto e sim à cultura, fomos para a Praça das Penas onde se encontra o restaurante, “Garum”.

A ceia foi uma delikatessen, o restaurante abrira só para nós, como o andar do Dezasseis na hora do jantar... Durante a sobremesa entregamos umas prendas de Sargadelos aos nossos homenageados: Martin Codax, Mendinho, e o João de Cangas... os nossos trovadores... O convívio foi entranhável, galegos, brasileiros, africanos e portugueses misturados... A mim, hoje, ao lembrar fica-me uma frase viva na memória, uma que o Mário repetira, pronunciada por Wellington ao ver como eram os galegos: “Espanhóis, dedicai-vos a imitar os inimitáveis galegos” Na emoção com que o Mário a repetira havia orgulho, talvez decepção e algo de raiva, mas também esperança. Talvez porque, tal como ele disse, mesmo sendo na atualidade só a sombra do que fomos, ainda continuamos a ser inimitáveis, e capazes de fazer cousas incríveis...

A noite levou-nos, lá para as duas da madrugada, de volta às nossas casas e hotéis. Que curta se fez!

De manhã muitos foram-se a caminho de Lisboa e alguns de aí ao Rio de Janeiro. Aqui ficamos os galegos e o amigo Craveirinha, ate à quarta-feira para percorrer Compostela e se encher do ‘ser galego’. Essa mesma tarde passeou com alguns de nós, e minha filha Nerea teve ocasião de aprender da vida com metáforas africanas, ela deixou-se ver como um elefantinho, a fugir dos leões, que aqui na cidade eram os carros...

Na quinta de manhã foi-se João Craveirinha, o último de nossos convidados; eu acompanhei-o a Chaves. Quanto lá chegamos ele ouviu falar a gente e disse: “São galegos, eles são galegos, eles falam como tu...” E é verdade, a Lusofonia é ampla e há muitos sotaques diferentes; ora, as gentes desta comarca falam como eu; eu já sabia isso, ou devia tê-lo sabido... mas neste novo contexto da Academia, e sendo observado por um Africano de Moçambique que já tem morado no Estado Espanhol, cobrava um novo sentido.

Agora, logo de toda a minha vida, alguém vinha dar por isso, porque eu, e quem diz eu diz qualquer pessoa desta Raia Seca, falamos igual, apenas muda um nada o sotaque polas influências centralizadoras dos dous Estados aos que uns e outros pertencemos. À minha cabeça veio a primeira vez que alguém me tinha dito que aquilo que eu falava, e que chamávamos galego, "era um idioma", também para isso houve uma primeira vez. E lembrei a minha tia Cândida a dizer... “e que seica que agora o Galego já é idioma” Eu pensei o mesmo que penso agora... é que antes por acaso, não o era?

Compreendi, polas teorias nas que eu acredito, que somos não só o que somos, mas sim o que nos dizemos que somos nas nossas narrativas: hoje nestas nossas narrativas dizemos que somos Lusofonia... com as nossas peculiaridades, com a nossa história, até com os nossos medos e o nosso orgulho, somos Lusofonia.

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