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quinta-feira, 16 abril 2009 00:00

Um 14 de abril histórico para a Galiza

Alexandre Banhos na Sessão Interacadémica

Alexandre Banhos

O 14 de abril para os espanhóis é a lembrança duma festa popular que se correspondeu com a proclamação da segunda república1. A partir de ontem o catorze de abril vai ser data a festejar tamém no calendário cívico galego.

Nos dous últimos anos o reintegracionismo todo está tendo avanços no relacionamento e reconhecimento institucional em Portugal como antes nunca2, pois infelizmente isso não ia além de ser um sonho no âmbito institucional, sem esquecermos o reconhecimento de que a nível individual o reintegracionismo já muito tinha alicerçado nesse relacionamento, eis como bom exemplo os grandes Congressos Internacionais da Língua organizados pola AGAL, ou os da Associação Internacional de Lusitanistas.

Há agora um ano, em 7 de Abril de 2008, o reintegracionismo todo estava convidado a falar num ato ordinário da Assembleia da República Portuguesa (Parlamento) e sobre nada mais nem menos que o assunto comum da língua, a nossa língua internacional3, plural como todas as línguas internacionais.

Nestes dous anos todos ajudamos4 desde o reintegracionismo, cada pessoa de acordo com as suas possibilidades e capacidades para que na Galiza por fim existisse uma Academia da Língua5 que se pudesse relacionar em pé de igualdade com as academias do Brasil e Portugal.

A AGLP nasceu com os melhores agoiros e com a bênção das suas irmãs mais velhas. O ansiado acordo ortográfico uniformador da escrita, que muito foi desejado de sempre na AGAL no contraste da nossa língua com as outras quatro grandes línguas internacionais e nomeadamente o espanhol, por fim é um feito.

O dia 14 de abril no formosíssimo salão da Academia de Ciências de Lisboa, tivo lugar a primeira reunião solene de todas as academias existentes da língua portuguesa, a nossa, pois por esse nome é conhecida internacionalmente.

Estava em pleno a Academia de Ciências de Lisboa Secção de Letras e muitos membros da Secção de Ciências; a Academia Brasileira de Letras (Rio de Janeiro) com uma muito considerável representação dos seus membros; a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), com igualmente uma importante representação. A Direção da Academia de Letras da Bahia. Acompanhavam as seguintes autoridades: os embaixadores de todos os países lusófonos em Portugal; a representação da embaixada espanhola no seu agregado cultural, ao estar presente uma instituição pertencente ao Reino de Espanha; os embaixadores ante a CPLP; o ministro e autoridades de Cultura de Portugal e das suas universidades, e representantes vários de todos os países presentes e os da comunicação social. Pola Galiza estava presente este Presidente da AGAL, e infelizmente faltavam autoridades políticas que foram devidamente convidadas e da comunicação social.

Presidiam a sessão, os Presidentes das Academias de Portugal, Brasil e a Galiza.

Gostei imenso dos discursos mas não vou trasladar aqui as minhas notas de todos os seis oradores, já que nos próximos dias há haver muita informação do evento, mas vou salientar do discurso do último dos oradores, o professor Adriano Moreira, as seguintes palavras: A língua não é nossa dos portugueses, nós temos a língua igual que a têm os brasileiros, galegos, angolanos... a língua constrói-se nas beiras do Sar e no mato brasileiro, a língua é um património comum de todos que não pertence a ninguém.

Eu por causas de trabalho não pude fazer a viagem com o resto da delegação galega, o dia 13 às 10 da noite ainda estava numa reunião e o dia 14 às 6 horas da manhã partia de carro para Lisboa. Essa manhã ainda tive tempo de fazer algumas gestões em Lisboa a ver com próximas atividades do reintegracionismo e com as possibilidades de chegarmos a distribuição dos nossos livros em Portugal. No carro levava uma caixa cheia de livros nossos para a biblioteca da Academia e para agasalhar aos amigos, pena não fossem muitas mais caixas, pois logo todos desapareceram.

Fum das primeiras pessoas em chegar à sede da Academia, onde falei com muitos amigos, e de passo nasciam outros novos, fum tratado com grande carinho e consideração que sei que era na minha pessoa para todos os nossos associados e para o povo galego em geral. Aguardo cumprir a minha palavra e em julho deste ano deslocar-me ao Brasil para continuar alargando os tecidos que nos atam. 

José-Martinho Santalha, presidente da AGLP, co-presidiu a sessão

José-Martinho Montero Santalha, presidente da AGLP, co-presidiu a sessão

Notas:

1 A república foi um período democrático nos anos 30 do século passado no estado espanhol, que foi apagado sob o terror fascista. Ao falar do terror não estou a pensar na guerra que desatou a sublevação militar, estou pensando na aplicação sistemática do terror à população como instrumento político, terror que é bem doado ainda de se perceber a pouco que se ranhar na pele do povo da Galiza.

Hoje reconhece-se que bem mais de um ¼ de milhão de pessoas foram executadas e desaparecidas. No pequeno esforço do juiz Baltasar Garzon para sacar a luz estes temas da "memória histórica", em só quatro meses já fora feito um pequeno inventário que se afirmava longe de completo, de 222.749 pessoas executadas extrajudicialmente e desaparecidas. E sem esquecer o role do aparelho judiciário nunca expurgado nem depurado na aplicação dessa doutrina terrorista.

No ano 1952 o Fiscal Geral do Estado Espanhol gabava no seu relatório anual a magnanimidade do "el Caudilho", pois só se levaram a cabo (sic) 12.852 execuções com o "garrote vil" nos últimos anos, frente aos milhares e milhares de condenados cuja pena de morte foi comutada ou indultada pólo "el Caudilho". Tal magnanimidade e amor ao próximo é bem lógico que pola igreja católica universal espanhola fosse devidamente abençoado, com o reconhecimento de que o "el Caudilho" nas igrejas devia entrar e estar sob o pálio no mesmo grau que o Santíssimo.

2 Tamém no reconhecimento institucional na Galiza, tanto no relacionamento com as instituições como no relacionamento com empresas e entidades para os que resultávamos absolutamente marginais.

3 Com esta campanha por primeira vez o reintegracionismo estivo no dia a dia em todos os meios de comunicação de todos os países da lusofonia (todos).

4 Nisso ha que destacar o trabalho pessoal e infatigável de Ângelo Cristóvão e a razão pacífica e tranquila do professor Martinho Monteiro Santalha.

5 A RAG não é uma Academia da Língua.

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segunda-feira, 30 março 2009 02:00

AGLP no 4º Encontro Açoriano da Lusofonia

Colóquios da LusofoniaEvento contará com representações dos Açores, da Austrália, do Brasil, da Bélgica, do Canadá, da Eslovénia, da França, da Galiza, da Itália, de Moçambique e de Portugal

PGL - Entre 31 de março e 4 de abril, nos Açores juntam-se as 3 Academias de Língua Portuguesa para debater a Açorianidade e a Literatura Açoriana sob o signo do novo acordo ortográfico. Pela Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) estarão presentes Ângelo Cristóvão (convidado de honra), Concha Rousia e Joám Trillo.

A delegação galega acompanhará, no Cineteatro Lagoense da Câmara Municipal de Lagoa, S. Miguel, os Professores Doutores Adriano Moreira (Vice-Presidente da Academia, Presidente da Classe de Letras, Presidente do Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa), Artur Anselmo (Academia de Ciências de Lisboa Presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia) que se juntam aos Patronos dos Colóquios desde 2007 João Malaca Casteleiro (Classe de Letras, 2ª Secção – Filologia e Linguística, da Academia de Ciências de Lisboa), e a Evanildo Cavalcante Bechara (Academia Brasileira de Letras) onde estarão também o Professor Doutor Carlos Reis (Reitor da Universidade Aberta, Lisboa), o Governador do Estado de Santa Catarina, deputados e mais representantes daquele Estado.

Igualmente de salientar a presença numa sessão sobre literatura açoriana dos consagrados escritores Cristóvão Aguiar, Daniel de Sá e Sidónio Bettencourt, além do notável historiador micaelense Mário Moura. A participação de 2009 conta com 50 oradores e dezenas de participantes presenciais representando Açores, Austrália, Brasil, Bélgica, Canadá, Eslovénia, França, Galiza, Itália, Moçambique e Portugal.

Durante o Econtro os serão lançados até quatro livros, integrados numa mostra de autores e obras açorianas, havendo música açoriana, uma representação teatral de Santa Catarina, Brasil e duas sessões de poesia (galega e brasileira).

O encontro pretende llevar os Açores ao mundo. Independentemente da sua Açorianidade, mas por via dela, pretende que mais lusofalantes e lusófilos fiquem a conhecer esta realidade com todas as suas peculiaridades, trazendo aos Açores outras vozes para que desse intercâmbio se possa difundir a verdadeira cultura açoriana.

O 4º Encontro Açoriano da Lusofonia conta com a parceria da Direção Regional das Comunidades estabelecendo as pontes com os Açorianos no Mundo e o imprescindível apoio da autarquia da Lagoa ao nível logístico. Este importante evento é totalmente concebido e levado a cabo por uma rede organizativa de voluntários.

Os Encontros, iniciados em 2006 com a duração de apenas dois dias, aumentaram gradualmente a sua relevância e impacto e já se prorrogarão ao longo de cinco dias no Cineteatro Lagoense. Reconhecendo a vitalidade e idiossincrasias da Literatura Açoriana voltam-se, agora, mais para esta vertente, sem descurar a tradução e os aspetos estruturantes que interessa debater da Lusofonia e da Açorianidade.

Comunicações que serão apresentadas pelas/os académicas/os da AGLP

  • Ângelo Cristóvão: «O acordo ortográfico».
  • António-Gil Hernández / Concha Rousia: «A Galiza na Lusofonia: reflexões sobre a Academia Galega da Língua Portuguesa».
  • Concha Rousia: «Mudança de narrativa linguística».
  • Isabel Rei / Joám Trillo: «A guitarra no Arquivo Valladares: música galega na lusofonia».

Fonte original:

terça-feira, 24 março 2009 01:00

Lisboa e as nossas palavras...

Concha Rousia 

Concha Rousia
As palavras, como os pássaros, voam sobre as fronteiras políticas.
Castelao 
- Mãe, para onde é que vão as palavras que eu falo...?
- Vão para onde o vento as quiser levar...
- E se eu não quero?
- Então terás que fechar a boca...

Lembro que de pequenos gostávamos de brincar a tentar falar sem abrir a boca, uns pegávamos com as duas mãos nos beiços que os outros colocavam fazendo o bico, para impedir que as palavras fugissem fora, mas fazia-se difícil compreender o que assim se tentava dizer.

Outra forma de brincar com as nossas palavras consistia em que uma pessoa, que permanecia com os olhos fechados enquanto outra desenhava letras com um pauzinho, ou com a ponta do índice, no seu braço, adivinhasse o que na sua pele se acabava de ‘escrever’...

Tudo para tentar burlar o vento que sabíamos queria levar as nossas palavras. Particularmente preocupante era aquele que soprava do Leste deitando sobre nós um bafo quente infestado de palavras alheias enquanto as nossas iam sendo empurradas a caminho do oceano Atlântico... Desacougante imaginar as palavras a aboiar assim polo mar fora... Esse mesmo mar que nós sabíamos em Lisboa mantinha a capacidade de se converter em papas... Lisboa era uma das palavras que a cotio aparecia nas nossas falas infantis... nos nossos jogos, nas nossas cantigas... (Voa joaninha voa que o teu pai vai em Lisboa e vai-che trazer um pão e uma broa...) o que não chegara eu nunca imaginar era que um dia Lisboa deixaria de ser apenas uma simples palavra para se converter no ouvido ao que eu ir contar as nossas outras palavras, as que ainda não foram ouvidas lá...

Fomos a Lisboa um grupo de quatro pessoas, Issac Alonso Estraviz, Ângelo Cristovão, António Gil, e eu. Desta vez para burlar o vento levávamos as nossas palavras escritas em brochura e pen-drive. A nossa primeira visita foi ao MIL (Movimento Internacional Lusófono) na Fundação Agostinho da Silva; a conversa demorou bem duas horas boas, ninguém, nem eles nem nós, se queria despedir daquele encontro.

O dia a seguir, às onze da manhã, dirigimo-nos à Academia das Ciências de Lisboa (ACL); era a primeira vez, desde a criação da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP) da que todos somos membros, que a visitávamos. Foi esta a primeira visita oficial da AGLP. A reunião foi enriquecedora tanto para uns como para os outros e todos ficamos muito satisfeitos.

O jantar posterior, embora que de elegante etiqueta, transcorreu num ambiente descontraído e muito amigável, era impossível não se sentir à vontade. Dos brindes tenho que destacar as palavras do Senhor Arantes e Oliveira que manifestou sua honra por ser ele o Presidente da Academia das Ciências de Lisboa na altura em que este acontecimento histórico, no que se incorporam os particularismos da Galiza ao corpo comum da nossa língua, está a ter lugar. As suas palavras, o jeito de as comunicar, e o brilho nos seus olhos enquanto as falou, mostravam que eram verdadeiramente sentidas, e com elas nos reconhecia como irmãos de Língua.

A seguir da sobremesa e os brindes, com porto servido nuns copinhos pequenos, muito diferentes dos que estão na moda na actualidade e idênticos aos que havia na minha casa quando eu era miúda... visitamos, acompanhados polos académicos, as magnificas instalações da ACL, entre as que quero salientar as bibliotecas, e a sala de sessões, onde ainda se conservam as primeiras cadeiras numeradas. Na tardinha, logo de regressarmos ao hotel, fomos visitados por amigos que nos convidaram logo a cear, o que pôs o broche final a um dia para nunca esquecer.

A manhã a seguir visitamos a Associação de Professores de Português (APP). Paulo Feytor, o que alguns de nós já tínhamos o privilégio de conhecer, recebeu-nos com as palavras ‘Bem-vindos a esta sua casa’. De tarde visitamos a Fundação Mário Soares onde o Ex-Presidente da República nos aguardava; logo de mais de uma hora com este extraordinário conversador, visitamos as dependências da Fundação nos seus dous prédios que olham em frente o Palácio de São Bento da Assembleia da República. A fundação, na que umas 15 pessoas trabalham diariamente, conta com uns arquivos digitalizados que a todos nós impressionaram.

Essa mesma noite regressamos à Galiza, a mim o caminho pareceu-me mais curto do que noutras passadas visitas a Lisboa; talvez porque sabemos que a cada vez vamos deixando lá mais amigos, com os que desde já, contar, não só na ACL, mas também no MIL e na APP, é não só; ou também talvez porque hoje foi um dia muito feliz para todos e todas nós, para mim significa ter conseguido finalmente vencer o feroz vento do Leste que ameaçava as nossas palavras...

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segunda-feira, 23 março 2009 01:00

Mário Soares recebeu delegação da AGLP

Mário Soares com a delegação da AGLP

Mário Soares com a delegação da AGLP

Isaac Alonso Estraviz - O dia 18 de Março tínhamos agendada às 15,30 uma entrevista com o ex Primeiro Ministro e ex Presidente da República de Portugal, Mário Soares, na Fundaçom que leva seu nome, ubicada na Rua São Bento, mesmo frente à fachada da Assembleia da República.

Na hora sinalada lá estávamos Ângelo Cristóvão, António Gil Hernández, Concha da Rousia e Isaac Alonso Estraviz. Tam aginha como entramos já nos levaram ao seu gabinete onde o cumprimentamos e nos cumprimentou a todos cordialmente. Depois pediu-nos que escolhéssemos a cadeira que quiséssemos e ele sentou na que ficava livre como um mais. Pessoalmente, encontrei-o de bom aspecto. Parecia ter menos anos dos que tem, muito bem conservado e com uma grande vitalidade.

Num primeiro momento ficou um bocado estranhado ao lhe dizermos que éramos membros da AGLP, pois ele achava que éramos da RAG, e ficou surpreendido ao lhe dizermos o verdadeiro nome. Eu já tinha estado com ele num Congresso em Lisboa sobre a Problemática do Português no Mundo, onde falara depois de mim, e especialmente na Homenagem a Manuel Rodrigues Lapa na Anadia em 1984, onde vários galegos: Maria do Carmo Henríquez Salido, Avelino Ferradal, Isaac Estraviz... tiramos fotos com ele metendo-se entre nós o Ministro de Educação Seabra. E por aí começamos a falar das línguas que se falam no Estado Espanhol.

A  respeito do Galego admitia muita similitude com o Português, mas não convergência total que no nosso dialogar, ao final, essas divergências não eram mais do que as que há entre qualquer província portuguesa. Connosco mostrou-se muito simpático, aberto e muito atento. Chegou a nos dizer que se a História seguisse o caminho normal hoje Galegos e Portugueses formaríamos uma mesma nação. E em parte coincidia com Castelão ao imaginar uma Península Ibérica federal, na qual formassem uma unidade Galiza e Portugal.

Demonstrou-nos um conhecimento muito grande de Manuel Fraga Iribarne com quem percorreu Galiza conservando uma grata memória dos lugares por onde andou: tascas, bares, cidades... Enlaçando com isto contou-nos a anedota que lhe aconteceu com o alcaide de Vigo Soto, que ao apresentá-lo para uma conferência disse diante de todos os assistentes que lhes apresentava o seu presidente.

Sobre o golpe de Tejero demonstrou ter um conhecimento muito superior quer através da sua filha que estava lá como do embaixador. Também do papel que teve na legalizaçom do Partido Comunista Espanhol, ainda que é visceralmente anticomunista.

Explicou-se-lhe a razão da nossa entrevista  e qual era a nossa missão e nosso cometido nessa e outras viagens a Lisboa. Chamou a uma senhora para tirarmos uma foto e nesse momento inesperadamente organizamos onde nos colocaríamos: eu ao lado dele na parte esquerda, mas ao reparar na Concha pediu que se pusesse ela a seu lado. Levou-nos a ver a biblioteca e depois pediu a António Coelho que fosse nosso cicerone na visita aos dous prédios de que se compõe a fundação e que se comunicam por um túnel entre si..

A Fundação conta com 30.000 livros e ele na sua casa sita entre a Biblioteca Nacional e a Faculdade de Letras, por onde eu passei infinidade de vezes, 70.000 volumes. Na Fundação guardam nos arquivos toda a documentação de Timor Leste e muito material de Alberto de la Cerda que doou à mesma. Na parte subterrânea estão os arquivos com estantes movíveis, parte destinada a material de Soares e outra parte a outros senhores.

Tem muitos computadores e escáneres para digitalizar todo o material: livros, folhetos, mapas... Trabalham diariamente quinze pessoas especialistas na manipulação de material informático para que o material ali conservado possa ser consultado. Material que pode ser consultado já parte e a outra quando estiver terminado o trabalho que está em curso.

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terça-feira, 16 dezembro 2008 21:00

Agália, nº 93/94 e Boletim da AGLP nº 1

José-Martinho Montero Santalha arvora-se num lugar cimeiro do Reintegracionismo

As duas revistas tenhem como referente
José-Martinho Montero Santalha

Joám Manuel Araújo - A revista de Ciencias Sociais e Humanidades Agália, editada pola Associaçom Galega da Língua, publicou o número duplo 93/94, correspondente ao Primeiro Semestre de 2008. E o Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa debuta no mercado. As duas publicaçons tenhem em comum favorecer o diálogo entre a Galiza e os povos que conformam o intersistema lusófono, em especial Portugal e o Brasil; além de umha apresentaçom de atractivo e muito correcta. Também as duas revistas tenhem como referente José-Martinho Montero Santalha, quem se arvora num lugar cimeiro do Reintegracionismo após mais de 30 anos de dedicaçom e trabalho continuado: do Manifesto dos 13 de Roma a publicaçons específicas na imprensa, em revistas especializadas e em volumes, difundiu diferentes possibilidades de aplicaçom da ortografia histórica galega. Esta trajectória faz dele um dos especialistas mais representativos entre aqueles que mais se implicárom neste labor, com umha vultosa produçom científica e literária, que justificam essa privilegiada posiçom referencial e a importante representatividade.

Nova etapa da Agália

Capa da Revista Agália nº 93-94A principal novidade do número da Agália (ver conteúdos aqui) está no relevo na direcçom, agora assumida por José-Martinho Montero Santalha, professor da Universidade de Vigo. Finaliza assim umha etapa muito interessante e intensa, em que estivo dirigida por Carlos Quiroga, da Universidade de Santiago de Compostela.

Entre o que mais impacta no leitor neste novo volume está a ausência de materiais gráficos na capa e no interior, tam importantes nos últimos anos, pois nom se encontra apenas nengumha ilustraçom, embora haja reproduçom de documentos, algum facsimilarmente. Também nom há neste número a secçom de «Percurso», que incluia notícias da actualidade dos últimos meses.

A Agália mantém o estilo que a diferenciou e a colocou num lugar referencial na Galiza, desde 1985. Continuam os conselhos de Redacçom e Científico sem mudanças a respeito de números anteriores, e renova o interesse com contributos de atractivo em que convivem metodologias e propostas ortográficas muito diferentes, que espelham a diversidade que de regra é habitual na lusofonia.

A revista oferece 300 páginas muito bem desenhadas e apresentadas, e trabalhos do maior interesse. Merecem destaque dous dos contributos de Montero Santalha: a ediçom do epistolário de Álvarez Blázquez e Manuel Rodrigues Lapa, 37 cartas datadas entre Setembro de 1951 e Julho de 1956, e 3 mais entre 1965 e 1970, con informaçons valiosas para entender o evoluir da cultura galega nos meados do século passado; e mais a recuperaçom, na secçom de «Textos Literarios», de Joaquim Árias Miranda, editando 18 composiçons procedentes de um caderno autógrafo de poemas, e «reproduzindo exactamente o original de Arias Miranda, tamén as suas particularidades gráficas», que Santalha esclarece ter conhecido a través de amizades ferrolanas. Inclui dados da biografia deste produtor, e informa de como foi referenciado na historiografia literaria galega por estudiosos como Carré Aldao, Couceiro Freijomil, Carvalho Calero, Fernández del Riego ou Dolores Vilavedra, com o que contribui a recuperar umha figura muito secundarizada e desconhecida das Letras Galegas.

Também resulta de interesse a secçom de recensons, em que se estreia como colaboradora a prestigiosa investigadora e professora brasileira Gilda Santos, quem pertence ao Conselho Científico da Agália há anos, e neste contributo frisa o «trabalho minucioso e amoroso de uma filóloga [a professora Vanda Anastasio, da Universidade de Lisboa]... sobre outra filóloga [a Marquesa de Alorna]», que conclui serem «duas mulheres notabilíssimas» de dous períodos diferentes de Portugal: os tempos de hoje e o século XVIII.

Lançamento do Boletim da AGLP

Capa do Boletim da AGLP nº 1O Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa sai ao mercado com o número 1, que se divulgou já desde o 6 de Outubro, data do lançamento desta instituiçom, e em que predominam os textos dos académicos, que combinam referências à história e à actualidade. Esta publicaçom está dirigida por António Gil Hernández; tem José-Martinho Montero Santalha de subdirector; Ângelo Cristóvão, de secretário; Joám Evans Pim, editor; para além de um Conselho de Redacçom integrado por 9 pessoas da Galiza; e um Conselho Científico conformado por 16 pessoas, todas elas nomes prestigiados do ámbito académico, representantes das três universidades da Galiza, e outras de Portugal, Brasil (entre eles Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras; e João Malaca Casteleiro, da Academia das Ciências de Lisboa) e da Inglaterra.

A respeito do conteúdo, inclui um «Editorial» (pp. 7-8), que principia com os seguintes parágrafos: «Começamos, neste ano 2008, uma caminhada tão esperançada quanto difícil. Esperamos contribuir para a construção da Comunidade lusófona da Galiza: somos conscientes das dificuldades que acompanham as propostas, as actividades e as atuações para verificarmos essa esperança. Confiamos, como Castelão, no Povo galego e nos restantes Povos da Lusofonia para ultrapasarmos com sucesso as dificuldades». Indica como um dos objectivos principais a defesa da ortografia do Acordo Ortográfico aprovado neste ano por Portugal e com anterioridade por outros três países.

Na continuaçom inclui umha citaçom de A. Vilar Ponte. E segue-se umha estrutura iniciada por seis estudos: «O nome da Galiza», de José-Martinho Montero Santalha, presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 11-34), em que oferece argumentos para a escolha de Galiza em lugar de «Galicia», umha discrepância fulcral (entre outras muitas) desta nova instituiçom com a histórica Real Academia Galega, que neste semestre defendeu a pertinência de «Galicia». Outros estudos som: «Sintese do reintegracionismo contemporâneo», de Carlos Durão (pp. 35-56); «Um ponto de inflexão na reivindicação nacional: 1916, a Irmandade da Fala», de Ernesto Vázquez Souza; «Estado, Nação e Tríade Lingüística: Teorização leve sobre factos graves», de António Gil Hernández (pp. 89-104); «Categorias gramaticais e dicionários: para uma didática dos adverbios», de Maria do Carmo Henríquez Salido (pp. 105-116); «O hexâmetro dactílico greco-latino e a sua adaptação à métrica galego-portuguesa», de Ângelo Brea Hernández (pp. 117-132); e «Galiza, terra e mãe. Mulheres e exílio na obra de Luís Seoane» de Barbara Kristensen (pp. 133-150).

Na secçom «Notas» inclui «Sobre o conceito de Notáveis na obra sociolinguística de António Gil», de Xavier Vilhar Trilho (pp. 153-164); «Um (assombrado) Complexo de Bartleby: Isto [não] é um livro e Eu [não] sou [...]» de Álvaro J. Vidal Bouzon (pp. 165-178); «Revendo as noções de ‘Lusofonia’. Uma aproximação conceitual», de J. Evans e B. Kristensen (pp. 179-186); e «Por um Corpus Musicum em liberdade», de Rudesindo Soutelo (pp. 187-194).

Na secção «Instituição» incluem os Estatutos da Associação Cultural Pró Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 195-200); a «Crónica da Conferência de Lisboa, intervenções, instituições e documentos» (pp. 201-212), em que Concha Rousia relata (pp. 201-206) a experiência da presença galega na sessom da Assembleia da República de Lisboa, aos 7 de Abril de 2008, em que aconteceu a audiência a diversas pessoas e instituiçons sobre o Acordo Ortográfico, incluindo o texto das intervençons de Alexandre Banhos, presidente da Associaçom Galega da Língua (pp. 206-209) e de Ângelo Cristóvão, presidente da Associação Pro-Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 209-211), bem como reproduçom do convite oficial (p. 212); o texto integral, com as XXI bases, do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (pp. 213-234); o Hino da Galiza, com introdução, partitura e letra (pp. 235-240); e a composiçom Deu-la-deu, suite para guitarra de Rudesindo Soutelo, estreada pola guitarrista Isabel Rei com ensejo da inauguraçom da AGLP.

A revista finaliza com 3 recensons: de Ernesto Vázquez Souza (sobre As Sete Fontes, de Concha Rousia), de António Gil Hernández (de O País dos Nevoeiros, de Ângelo Brea) e de Álvaro J. Vidal Bouzon (de Temas de lingüística política, de A. Gil Hernández).

Conclusom

Estamos, portanto, perante duas publicaçons que oferecem umha perspectiva muito interessante do relacionamento da Galiza com o mundo, através do diálogo com o intersistema dos povos que conformam a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). É esta umha possibilidade aberta, pouco aproveitada ainda na Galiza, que se disponibiliza polo facto de partilhar idioma comum. Ambas as revistas situam-se numa vanguarda referencial: a Agália com umha importante trajectória já de 24 anos, em cujas páginas tenhem colaborado nomes de relevo da Galiza e dos diferentes países lusófonos, e nom só; e o Boletim da AGLP iniciando o seu andamento.

Esse relacionamento com a comunidade lusófona tem oferecido frutos importantes já para a Galiza, e abre perspectivas e posibilidades muito aliciantes. Quando prosperarem, nom se poderá negar o papel pioneiro e os trilhos abertos por publicaçons como estas, entre as principais que tenhem trabalhado por esse objectivo de abertura ao mundo e de integraçom num âmbito que, por história e tradiçom, nom pode ser alheio para a comunidade galega.

Compostela, Dezembro de 2008.

Fonte original:

José-Martinho Montero Santalha | Foto: Versão Original

Presidente da AGLP entrevistado pelo diário nacionalista GZnación

PGL - «Fora da unidade linguística galego-portuguesa o idioma da Galiza não poderá sobreviver». Eis o cabeçalho da entrevista a José-Martinho Montero Santalha que publica hoje o diário nacionalista GZnación.

O presidente da AGLP fala também sobre a criaçom desta instituiçom. «[A ideia] de criar uma Academia Galega da Língua, distinta da Real Academia Galega, já se tem falado repetidamente desde os anos 60 do passado século, pelo menos. No entanto, a primeira ideia de constituir uma Academia Galega da Língua Portuguesa, com este nome, procede, que eu saiba, do professor Carvalho Calero».

Montero-Santalha também fala dos objectivos da Academia, entre os quais salienta «a pretensão de servir de contraste público à ideologia isolacionista, com a esperança de que os poderes políticos galegos deixem algum dia de sancionar essa ideologia como prevalente».

Perguntado sobre a polémica suscitada em determinados foros sobre a denominaçom do galego como «português da Galiza», o presidente da AGLP responde que «é habitual denominarmos a nossa língua como galego, ou mesmo como língua galega [...] Nós usamo-lo com o sentido, que cremos correcto, de língua portuguesa da Galiza; porém [...] os defensores da tendência isolacionista pretendem fazer dela uma língua independente do português do resto do mundo; de modo que, por esse motivo, a expressão língua galega pode resultar ambígua ou até enganosa».

A ligaçom entre a Academia e o reintegracionismo, o relacionamento com a RAG, as estratégias para a normalizaçom do galego ou o relacionamento luso-galego som alguns dos temas  sobre os quais Montero-Santalha também dá a sua visom na entrevista.

Fonte original:

Mais info:

Jornal La Región entrevista José-Martinho Montero Santalha

"As pessoas na Galiza têm que saber
que a nossa língua é o português da Galiza"

O jornal La Región, sediado na cidade de Ourense, publicou na passada segunda-feira, dia 13 de outubro, uma extensa entrevista ao presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa, José-Martinho Montero Santalha. Na entrevista, o professor destaca que "manter o galego como língua independente do português o condenará a desaparecer" e defende para ela a denominação "português da Galiza".

Ainda, o presidente da Academia explica as razões que motivam o surgimento deste novo projeto, bem como o relacionamento que a AGLP terá com as instituições galegas e mais a Real Academia Galega, além de abordar diversas questões como a delicada situação que atravessa a língua na Galiza e as possíveis soluções para a sua supervivência e revitalização.

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Francisco Rodríguez Sánchez | Foto: Vieiros

O filólogo e dirigente nacionalista vincula
certo isolacionismo com «espanholia»

PGL - Num artigo publicado hoje num conhecido jornal electrónico, o filólogo e dirigente nacionalista Francisco Rodríguez valora a criaçom da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP). O responsável de Formaçom do BNG lembra que o nacionalismo, historicamente, sempre defendeu a unidade linguística galego-portuguesa.

Para ele, a defesa da unidade partiu sempre de um critério que se fundamentava em «sólidos raçoamentos e comprovações [...]. Nom se deixárom perturbar polo facto de ser Portugal um estado independente e a Gailza umha naçom negada, convertida em província da Espanha imperial», assegura no artigo.

Rodríguez continua afirmando que a teoria isolacionista, isto é, a defesa de um galego como 'língua de seu', só começou a tomar forma com a chegada da democracia e a instauraçom da autonomia política para a Galiza. Deste jeito, segundo o ex-deputado, «a normativa do galego [...] elaborou-se com critérios totalmente alheios aos da normativa do português, enfatizando as diferenças, assegura.

Na sua opiniom, as pessoas encarregadas deste labor optárom por afastar «artificialmente» o galego do português, umha orientaçom que qualifica de «anti-portuguesa» e que as mais das vezes respondia a um posicionamento ideológico «espanholista». Chegado a este ponto, Rodríguez vincula o isolacionismo galego com o valenciano (ou blaverismo, que nom reconhece a unidade da língua catalã com as falas valencianas), e atribui ambas correntes a um «isolacioinsmo agitado pola espanholia»

Francisco Rodríguez finaliza o artigo referendo-se à AGLP. Para ele, a sua apariçom nom é negativa, contrariamente a algumhas «reacções desaforadas e sintomáticas». Contudo, o responsável nacionalista acha que a soluçom nom é a terminológica, isto é, denominar o galego 'português da Galiza', mas «dar passos claros, práticos, para reintegrar o nosso idioma no seu espaço natural, o galego-português».

Destarte, a apariçom desta Academia valoriza-a como «a resposta extra-oficial, filológica, extrema a umha deformaçom e negaçom recorrente», àquela que nom reconhece a unidade linguística.

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segunda-feira, 20 outubro 2008 22:00

Academia Galega da Língua Portuguesa na TVG

José-Martinho Montero Santalha entrevistado no programa Bos Días

PGL - O presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), o catedrático José-Martinho Montero Santalha, foi entrevistado hoje de manhá no programa Bos Dias, do canal público Televisión de Galicia. A entrevista foi emitida ao vivo às 09h41 e prolongou-se durante 10 minutos.

Na mesma o presidente da AGLP respondeu diversas perguntas, desde a denominação da língua, até os passos e trabalhos a fazer pola nova academia, passando por questons relativas à fonética, à escrita, à economia, ou a discriminaçom e grave situaçom em que se encontra a língua galega ou português na Galiza neste momento.

Na última pergunta, Montero Santalha manifestou que a AGLP está pronta para colaborar com Política Linguística, embora entenda que essa instituiçom esteja submetida às leis do momento e, portanto, tenha que as cumprir.

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Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta de Lisboa

"A AGLP deve bater-se pela ideia de que o galego
não é uma língua em divergência com o português"

José Ramom Pichel / Valentim R. Fagim - Carlos Reis é um dos professores mais reconhecidos em Portugal e um firme defensor do Acordo Ortográfico para o português. Grande amigo da Galiza, já em 1983 apoiou a proposta de integração do nosso País na Lusofonia, quando apresentada por uma delegação galega no contexto do I Congresso da Língua Portuguesa.

Atualmente reitor da Universidade Aberta de Lisboa (da qual foi fundador), é Catedrático da Universidade de Coimbra, e no seu amplo currículo podemos salientar que foi diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa, diretor do Instituto de Estudos Espanhois de Coimbra, presidente da Associação Internacional de Lusitanistas, tem coordenado a edição crítica da obra de Eça de Queirós e participou na Conferência Internacional/Audição Parlamentar sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa realizado na Assembleia da República portuguesa em 7 de Abril de 2008.

Estivemos com ele no passado dia 6 de Outubro, data em que esteve em Compostela dando apoio à Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), no dia da Sessão Inaugural das suas atividades.

Como é visto por um português médio a existência na Espanha de uma Academia Galega da Língua Portuguesa?

Nesta altura acredito que não seja ainda uma iniciativa muito divulgada. Mas quando for, eu acho que o português médio vai sentir orgulho nisto, por que vai perceber que a língua portuguesa, além dos espaços em que é normalmente falada (o Brasil, Angola, Moçambique, etc.), tem ao norte de Portugal um espaço possível de afirmação.

Portanto, acredito até que isso seja um factor importante para fazer o português médio perceber o recuperar a ligação histórica que existe entre Portugal e a Galiza.

A respeito do acordo ortográfico, às vezes observa-se uma confusão entre ortografia e outros aspectos da língua, nomeadamente pronúncia, morfo-sintaxe e léxico. Acha que as posições contrárias a respeito do Acordo Ortográfico nascem da ignorância ou da má vontade?

Nalguns casos eu creio que nasce da ignorância e noutros casos nasce de uma má vontade criada pela ignorância. A verdade é que eu até posso compreender, de um ponto de vista emotivo, estas reações por que a ortografia é um aspecto da língua que está muito ligado ao nosso corpo. Nós escrevemos com a mão e isso cria uma espécie de ligação indireta entre a língua e o corpo; mudar a ortografia para muita gente é, um pouco, como mudar o corpo.

Se a pessoa não tiver a noção de que a ortografia tem muito de convencional e, sobretudo, se não tem perspetiva histórica do que foi a mudança da ortografia ao longo dos séculos, acho que – e eu respeito isso, mudar a ortografia é mudar ela mesma, e de aí resulta uma tremenda confusão entre o código da escrita, que é muito convencional, e a identidade cultural, linguística etc.

E isso que para algumas pessoas é uma confusão para muitas outras é uma atitude emocional que eu posso compreender, sobretudo quando as pessoas não se lembram de que ao longo dos séculos a ortografia foi mudando e as pessoas foram ajustando o seu corpo à ortografia.

E um pouco como – todos nós temos esta memória, há vinte anos escrevíamos em computadores grandes, com teclados grandes, há trinta anos escrevíamos com uma caneta, hoje escrevemos em computadores pequenos e o nosso corpo foi-se adaptando a isso e com a ortografia vai acontecer a mesma coisa.

Acha que se a Galiza se somasse ao Acordo facilitaria que houvesse mais projectos em comum Portugal-Galiza-Brasil? Por exemplo, no campo dos computadores, nas tecnologias da informática...

Claro. Sobretudo se o ato de compartilhar esse espaço viesse a ser, como acho que deve ser, não apenas compartilhar palavras mas conceitos, atitudes mentais, representações. Não apenas palavras, mas aquilo que elas trazem consigo.

E é por isso que eu acho que seja importante. A seguir ao Acordo Ortográfico – não antes como alguns disseram, mas a seguir, entendermos quanto há de vocabulários técnicos, terminologias, etc. E aí o mundo da informática é fundamental, por que é um mundo que hoje atravessa todos as áreas do saber e nós falamos com metáforas da informática no falar comum sem nos apercebermos.

Depois do Acordo Ortográfico vêm os factos, os trabalhos, seleções e elencos de palavras que nos digam o que é que um conceito significa nos vários portugueses, no português de Portugal, do Brasil, da Galiza, de Angola, e que se encontra aí uma comunhão de conceitos, mais até que a ortografia.

Pensa que a utilização de metáforas como «sabores da língua» podem ser uma boa maneira para ligar melhor para a gente que não tem muito a ver com a linguística?

A expressão «sabores da língua» é muito interessante, porque é aquele domínio da língua em que salvaguarda o que há diferente, sem ser uma ruptura, entre uma forma de falar português do Brasil, Portugal, Galiza... que não ponha em causa a ruptura da língua.

A utilização de metáforas como «sabores da língua portuguesa» é muito importante para sabermos que a unidade da língua não é afectada por estas oscilações, são mais de natureza lexical, terminológica do que de natureza ortográfica. Eu posso escrever a mesma palavra da mesma forma em Portugal, no Brasil, em África ou na Galiza, mas ela significar diferente. Mas, para mim a ortografia o que é esse poder de manter a língua com alguma unidade. E este é um motivo muito importante a sublinhar por que nem sempre é bem avaliado.

Nós – é um discurso muito corrente em Portugal, falamos muito na necessidade de respeitar a diversidade da língua, a criatividade. Acho ótimo, mas é preciso ter em conta que essa dinâmica tem um preço, e esse preço chama-se a fragmentação da língua. A ortografia é essa convenção onde esta fragmentação controla. É muito bonito falarmos nos 230 milhões de falantes de português, mas se ao mesmo tempo nós estimularmos a fragmentação da língua, de daqui a cem anos esses 230 milhões de falantes já não existem. E repito, a ortografia é para mim o domínio onde se mantém alguma coesão sobre a língua.

Quais pensa que deviam ser os passos primeiros da Academia Galega da Língua Portuguesa?

Os passos que já deram são importantes, os outros que vêm a seguir, para o dizer de uma forma muito clara, acho que a AGLP, no meu ver, deve bater-se pela ideia de que o português é uma língua que existe naturalmente na Galiza, ou seja que o galego não é uma língua em divergência com o português.

Mas acho que é preciso ter muito cuidado, relativamente à questão política. Isto é, que a AGLP não significa um princípio de fratura política, um princípio de separação política, para que com naturalidade se aceite a ideia de que o português da Galiza é um pouco como o português em Angola, ou no Brasil ou em Portugal, sem trazer com isso outra coisa que não seja uma mera afirmação linguística.

Portanto, manter a questão da língua corno uma questão autónoma mas não como uma questão que arrasta fraturas de natureza política, a menos que os galegos entendam que deve ser assim. Esse é um problema dos galegos.

Em 1983 decorreu em Lisboa o 1º Congresso da Língua Portuguesa. Então, a professora Maria do Carmo Henriques e outros galegos apresentaram uma proposta para a integração da Galiza na Lusofonia, proposta que você apoiou. Pensa que tem havido avanços a respeito desde então?

Esta academia é a prova de que ideia fez o seu caminho. Ou seja, eu acho que o termo Lusofonia é mais abrangente e pacífico até do que o da Língua Portuguesa. Não se trata de um espaço propriedade de Portugal, mas um espaço amplo em que o português da Galiza está na mesma situação em que está o português do Brasil, da Angola ou da Guiné.

Portanto, de aí para cá esta ideia avançou e o que eu acho é que esta academia é como um instrumento regulador, uma prova de que há uma componente lusófona na Galiza.

Até que ponto o debate sobre o Acordo Ortográfico em Portugal é um debate político?

Eu diria que é mais um debate de natureza mental e psicomental do que político. Para muitos portugueses a questão do Acordo Ortográfico representa um problema mental com o Brasil, a dificuldade de reconhecer o papel importante que tem o Brasil hoje em dia na afirmação do português e a dificuldade de reconhecer de que o Brasil pode fazer mais pelo português do que Portugal.

É uma coisa que custa aceitar, que os portugueses pensem assim mas é uma realidade geocultural, geopolítica... Por exemplo, em Portugal há o Instituto Camões que trata da afirmação do português no estrangeiro, um instituto assim não há no Brasil só que o Brasil tem muitas outras formas - economia, música, literatura, moda, de afirmar o português internacionalmente. É uma outra forma, uma outra dimensão de ver o português e não comparar Portugal com o Brasil.

Essa comparação criou uma espécie de trauma. Muitos portugueses diziam «não tenho que falar como os brasileiros». A ortografia não sabe do falar. Isso traduzia é uma resistência à ideia de que o Brasil tem um papel ativo a representar aqui, e num futuro próximo também outro grande país que vai ser Angola... e quem sabe se também a Galiza.

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