Info Atualidade (365)

Concha Rousia
Concha Rousia

Portugal está pechado
c’uma chavinha de vidro
se essa chavinha se perde
Portugal fica perdido.

Da Brasileira fomos ao restaurante guiados pola mocidade de AGAL de Lisboa, éramos vinte, três ou quatro éramos portugueses, outros éramos os que chegáramos o dia anterior, outros éramos galego-portugueses simplesmente. Foi um jantar-ceia inesquecível: as caipirinhas, o picadinho mineiro, o sorvete de maracujá, o café, de novo o café... Mas o café só veio ao final; antes vieram as apresentações, que foram ideia do Alexandre, que ia anotando os nomes num livrinho pequeno...

O primeiro em falar foi Antonio Gil, e a seguir fomos um por um despindo nas palavras e nos risos e brincadeiras tudo o que éramos e o que não éramos. Foi uma festa... um convívio entranhável, que fez com que a cama tivesse que aguardar por nós... E de novo o metro, linha azul, depois amarela; entramos no hotel lá perto das duas da madrugada, mas o corpo ainda não nos pedia cama, não... 


Ceia AGAL


Nós, caros e caras que estais a ler esta crónica, sentíamos a necessidade de saber de vós, de saber que vós sabíeis que tudo fora bem; foi nesse instante que eu entendi o argumento sobre a necessidade da Trindade que exprimira Xavier quando íamos a caminho de Lisboa... “Se Deus é amor, necessita amar, daí a necessidade do Filho, mas para que tenha existência real, a cena necessita ser contemplada por um terceiro: o Espírito Santo...”

Não estou a dizer que vós fosseis o Espírito Santo, mas isso é exactamente o que estou a dizer mesmo... Nós tínhamos falado, e tínhamos sido ouvidos, mas para nós saber isso, para que isso fosse realmente certo, nós necessitávamos a segurança de que vós nos tínheis visto. O portátil do Ângelo não nos dava para conectarmo-nos à rede desde os quartos por causa de um antivírus de última hora, e foi a net de moedas, como as antigas cabinas de telefone, que nos permitiu vermos-nos, vermos-nos através de vossos olhos...


Ceia AGAL


Nunca esquecerei a imagem do hall do hotel... lá na esquina Martinho não cessa de meter moedas para que a máquina nos siga mostrando o PGL, eu que ficara preocupada porque a minha câmara se tinha parado no minuto três da intervenção de Alexandre fiquei de boca aberta ao ver que já lá estava no portal... parecia uma miragem.

Aos poucos a gente foi indo para a cama, eu fiquei de última esgotando os minutos que restavam por gastar na cabina-net. Abri meu correio. Tinha uma mensagem de Selmo Vasconcellos, que me avisava de que no número 51 de “O Rebate” revista que ele dirige em Porto Velho (Rondônia), saíram seis poemas meus. Pareceu-me um bom sinal receber aquela mensagem vinda do Brasil em Lisboa; a noite não podia ter melhor final para mim.

Na máquina esgotaram-se os minutos. Fora seguia a chover; quando já me ia, o guardinha do hotel desejou-me boa noite e falou-me de que antes chovia no Norte e agora chovia em Lisboa... Quem sabe este guardinha não seja do Norte, desses que nós enganávamos nos nossos jogos; quase quis perguntar mas vi que tinha cara de muito falador e simplesmente lhe respondi ao da chuva, os dous concordamos com que o tempo anda com o de acima para abaixo...

De manhã no pequeno almoço acabamos de organizar as actividades nas que já tínhamos falado nos dias anteriores... e que já agora, não incluíam uma visita pausada e afectuosa a esta cidade que nos dava o que tinha: sua alma. Em muitos momentos eu senti a necessidade de pedir perdão a Lisboa por não a poder visitar como ela, senhora que é, merece; mas prometi-lhe voltar...


Subir ou descer


Os trabalhos foram repartidos muito bem, escritórios para visitar, documentos para apanhar, embaixadas que informar... e num par de horas no hotel para outra sessão de trabalho. Foi uma jornada muito frutífera; ficamos satisfeitos com os planos de futuro, que já são pressente; julgamos que encontramos alguns aliados que nos vão ajudar no cuidado dessa chavinha de vidro que nos abre as portas da Lusofonia. De novo almoçar para ir depois a visitar a Academia de Ciências de Lisboa.


Indo à Academia das Ciências de Lisboa


A cita era as 16:30, e era com o Presidente da Academia, o Dr. Adriano Moreira. Fomos de metro, de novo a linha amarela e a azul... Chovia, íamos partilhando os guarda-chuvas como partilhávamos nossos destinos, e nossos encantamentos de como todo ia saindo... Desde a parada Baixa-Chiado fomos a pé até a Academia... esses foram os escassos momentos com luz de dia que andamos algo pola cidade, mas sem parar de andar... Chagamos.

O senhor Presidente da Academia recebeu-nos como membros da Academia Galega. Um senhor com saber diplomático; sentado entre o Ângelo e o Alexandre manifestou interesse por nós, pola nossa Academia, polas futuros relacionamentos, pola Galiza... no plano mais pessoal ao final nos disse que ele era de Bragança, por tanto vizinho do Norte; rematou a reunião e antes de nos ir embora mostrou-nos a biblioteca...


 Foto-reportagem Academia das Ciências de Lisboa
(08 de Abril de 2008 | Fotografias: Ângelo Cristóvão)


Impressionante, por dizer alguma palavra. Tiramos fotos dos tesouros linguísticos e da estância. Era hora de partir... Lisboa parecia querer-nos pegar nos pés, mas havia muita distância que percorrer. Voltamos ao lugar do carro, fomos às compras de última hora... Eu tinha uma encarga, só uma...

Quando o domingo sai de casa minha filha disse: trai-me ovinhos moles de Aveiro. E eu fui a procura disso, e de umas revistas das Winx, que ela adora. Na livraria tivemos que tirar uns dos outros porque os livros nos prendiam... parecíamos esfameados que sabiam que apenas tinham uns momentos e depois a estrada os separaria desta liberdade de escolher leituras. Trouxemos connosco dicionários e outros livros, e eu ainda entrei numa loja para trazer vinho do Douro...

O caminho de volta foi igual de intenso que o de ida, as conversas, agora depois de tantas horas juntos até tínhamos a sensação de nos conhecer melhor, como de toda a vida... Paramos nas beiras do Porto para comer um bocado e compramos a imprensa. Lá por volta das duas da madrugada chegamos a Padrão depois de passar por Pontevedra; ainda ficavam Compostela e Corunha a aguardar por alguns de nós.


De volta de Lisboa


Esta viagem saciou-nos de tudo o que nos leva faltado durante tanto tampo, saciou-nos com respeito por nós, por nós ser o que somos; isso que se nos nega na nossa própria terra e que Portugal, desta vez muito generoso, nós ofereceu, e por uns dias nós fez sentir o centro do universo. E nós, guerreiros e guerreiras contra o silêncio e o esquecimento, prometemos cuidar da chavinha de vidro, que nunca, nunca vamos deixar partir...

Concha Rousia 
Concha Rousia

- Mas que há de novo lá por Lisboa?
- Coisa má nenhuma, somente ouvi dizer que o mar se volvera papas...

Partimos de Padrão, dai fomos a Pontevedra, onde se uniu a nós o quinto ocupante do carro. Martinho mostrou-nos o ponto exacto onde mataram Alexandre Bóveda. Sentimo-nos muitos no carro, mais dos que éramos, e éramos muitos...

O trajecto até Lisboa foi um fio de palavras. As conversas foram connosco, o já feito, o por fazer... O cansaço tomou logo conta dos corpos, paramos, Ângelo pode assim descansar os olhos enchendo-os de verde em lugar do negro do asfalto. Tiramos a primeira foto. Eu lembrei-me, como é meu costume, de todos os que estavam connosco sem estar... entre eles Rosalia, entre eles Bóveda, entre eles a minha mãe a me ensinar o cantar da joaninha:

“Voa joaninha voa, que teu pai vai em Lisboa, e vai-che traguer pão e cebola...” –deves repetir até que a joaninha voar...  


A caminho de Lisboa


E a canção do “Malhão” que eu sempre julguei era galega e depois foi que aprendi que o não era. Aqueles foram tempos em que eu vivia de verdade imersa na lusofonia... e as nossas casas feitas polos castrejos de Castro Laboreiro, e o senhor João, e o Freitas que traz café, sabão, e as duas mulherinhas de olhos gázios, mãe e filha, a nós trazer os panos de cozinha, os refaixos, e as toalhas, e a feira de Santos de Montalegre... e os bois, e a chega, e subir as calças, e os guardinhas sempre a perguntar:

- Mas que há de novo lá por Lisboa?
- Cousa má nenhuma, somente ouvi dizer que o mar se volvera papas.
- Mas isso não pode ser...!

E atravessar um lameiro e do outro lado é Portugal... “Mas como pode ser isso?” De crianças procurávamos entender o que era a fronteira; depois fomos aceitando que era invisível, que era algo no que se falava, algo que nos obrigava a ir classificando tudo...

A canção do Malhão é portuguesa... A da Carolina é galega. Eram tempos sem televisão, e as rádios, como nós, também não aprenderam a parar suas ondas em raias imaginárias e nós sentíamos Montalegre ali pertinho. É estava mesmo.

Hoje o mundo recoloca-se todo dentro de nós e as conversas vão servindo de apoio a este processo que vai tendo lugar em cada um de nós... e o acordo do 86, e o do 91, e os que chegaram a Lusofonia pola via do estudo e a análise profunda, e os que simplesmente nascêramos ali, e depois se nos arrancou para nos transplantar na Hispanofonia... Eu fui desses que não chegaram a prender; e hoje mentes o carro vai bebendo os ventos que nos falam do futuro, vamos abraçando naquinhos esquecidos do nosso passado... E como sempre, era à terceira que os guardinhas eram enganados...

- Mas que há de novo lá por Lisboa?
- Coisa má nenhuma, somente que quando eu vir, vi como a gente toda, grandes e pequenos, homens e mulheres, iam com colheres a correr para o mar....
- Aió, pois olha que vai ser certo que o mar se volvera papas...!

E os guardas do nosso jogo corriam também para o mar, e a raia era livre e nós passávamos de um lado para o outro vencedores ao final.

E chegamos a Lisboa; ao pouco tempo veio o Estraviz e Manuela, e depois Alexandre e Margarida; Joel ligou para nós, ao telefone de Ângelo, e combinamos para o dia a seguir, o dia da Assembleia da República. E lá estava eu, começara enganando a uns guardinhas há perto de quarenta anos e agora era eu a que viera até Lisboa com a minha colher. Era tarde, mas ainda levávamos trabalhinhos para ser acabados no silêncio dos nossos quartos. Foi um momento no que eu agradeci todos os conselhos que me foram dados. Dormimos.

De manhã, logo de um pequeno almoço, ao que, a meu modo de ver, o nome não lhe liga nada bem, fomos para o Palácio de São Bento; uns de metro e outros no carro de Margarida para carrejar os livros; já lá estavam Teresa e Rodrigo. Fomos os primeiros em chegar, os galegos e galegas chegamos mesmo antes de que se abrissem as portas.

Éramos onze em total, todos convidados pola Assembleia. Todos respeitados como membros da Lusofonia, e assim nos receberam, e assim no-lo fizeram sentir também os primeiros portugueses que foram chegando, reconhecendo aos mais velhos entre nós, falando em encontros passados, e fazendo sonhar aos mais novos com um dia ser assim reconhecidos polos que hoje aqui encontrávamos.

A manhã começou a ir deixando passar os oradores. Abriu a sessão o Presidente da República; a seguir falou o presidente da Academia de Ciências de Lisboa; depois veio Bechara e o abraço morno do Brasil; falou também o representante de São Tomé e Príncipe; e finalmente, com uma energia que se fez notar, fechou esta sessão a Presidenta do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (CPLP).

Antes de a gente ir a almoçar, os corredores se encheram, as mãos se encontraram, os cartões e os livros mudam de lugar, os sorrisos, os jornalistas, as televisões, o descanso, a imensa escalinata, o bacalhau, o vinho verde, a sobremesa e o café, ai o café... o café aqui é outra cousa, o café aqui é “o café”...

De volta na nobre sala continuou a jornada. Falou o primeiro dos convidados, Vasco de Graça Moura, que não soube estar a altura de si mesmo, talvez por ele se saber perdedor antes de abrir a boca. Atrás dele falou Carlos Reis, que o derrubou com a primeira frase, e continuou a falar com palavras e com suas mãos e com seus olhares vivos e sinceros, e com verdades... e no momento da pausa todos o quiseram cumprimentar e nem foi possível para todos conseguir isso. Na pausa voltaram as conversas e os abraços e os irmãos que nos chamaram de irmãos... sim, definitivamente, por incrível que pareça, o mar se volvera papas e eu fora lá convidada.

A pausa foi breve e pronto voltamos todos à sala. A mesa estava agora integrada polos representantes dos diferentes grupos parlamentares, e ante eles falaram todos os da audiência que tinham turno para isso. Começou a sessão Malaca Casteleiro. Ele estava sentado do lado dos galegos, junto dele estava Bechara, e o outro dos três daquela bancada era Estraviz; eu tive o privilégio de tirar a foto. Lá permaneceram os três, eu lembro ter pensado que nem sempre é por acaso que o destino junta a gente.

Atrás de Casteleiro falaram o resto de oradores; todos se foram alinhando com o discurso de Carlos Reis e o apoio ao acordo ortográfico, com alguma excepção, como a do livreiro que parecia magoado por ter que destruir tanto livro como há na norma antiga... e ele não reparou em que isso nunca se tem feito ao longo da história, se isso se fizer poucos livros de valor haveria nas bibliotecas das Academias; mas enfim, ele falava em nome dos livreiros...


Alexandre Banhos na Assembleia da República


Finalmente chegou a nossa hora, a hora dos galegos... Eu estava sentada no meio, equidistante entre Alexandre e Ângelo, os nossos oradores; agora era a nossa voz que ia encher a sala. Primeiro falou o Alexandre, e todos falamos com ele; depois falou o Ângelo, e todos falamos com ele.

Falamos bem e fomos cumprimentados depois, saudados, parabenizados, e até talvez por algum, temidos, os galegos... Nós, contentes, nossa pertença a Lusofonia tornara-se o que tinha que ser: óbvia... Não podemos saber aonde poderemos chegar, sabemos é que lá chegamos, e sabemos que vínhamos de muito longe e não nos vamos precipitar agora que estamos mais perto... Nós entraremos onde quer que tenhamos de entrar...


Ângelo Cristóvão na Assembleia da República


Como lhe dizia o Ângelo ao representante do PCP “Os galegos entramos na Lusofonia pola porta grande” E eu reparei que as portam eram muito grandes, e como no conto dos guardinhas, que deixavam o passo livre, estas portas foram abertas para nós passar... E nós passamos, e nos sentimos em casa, aquele espaço era nosso.

Com o final da tarde vieram as despedidas e os planos de futuro. Mas o dia ainda não ia acabar ai para nós que estávamos sendo aguardados no Baixo Chiado, lá na Brasileira, polos membros de AGAL de Lisboa que nos prepararam uma festa que coroou um dia que nascera republicano... Na porta da Brasileira, sem medo da chuva que nos seguira até Lisboa, tiramos nossas fotos com Pessoa, mesmo parece que levava muito tempo a nos aguardar... (a seguir)


Na Brasileira

 Fonte original:

Alexandre Banhos e Ângelo Cristóvão na Assembleia da República

Alexandre Banhos e Ângelo Cristóvão em destaque

Eduardo Maragoto - Anos depois do falecimento de Lindley Cintra, Celso Cunha ou Rodrigues Lapa, grandes filólogos portugueses amigos da Galiza, o reintegracionismo voltou a pôr a Galiza no centro do debate sobre o futuro da língua comum. Foi numha sessom parlamentar sobre o Acordo que aproxima as ortografias brasileira e portuguesa (também usada nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa – PALOP – e Timor) realizada no máximo órgao da soberania popular de Portugal, a Assembleia da República.

Apesar dos medos deste último país, o Acordo será provavelmente assumido em toda a Lusofonia nos próximos anos. A Junta, como se o galego gozasse de óptima saúde, nada quijo saber. O reintegracionismo, unido, foi o representante da Galiza em Lisboa, com as vozes de Alexandre Banhos, da Associaçom Galega da Língua (AGAL), e Ângelo Cristóvão Angueira, da Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa.

Porque é importante o Acordo (conhecido como ‘de 90’) para a Lusofonia?

A. B. : A nossa língua, o português, que assim é conhecida internacionalmente, é a única entre as internacionais que nom tem umha normativa universalmente aceite em todos os Estados onde é oficial. No século XVIII criou-se a Academia das Ciências de Lisboa, mas nunca chegou a elaborar umha norma nem um vocabulário ortográfico. A responsabilidade caiu assim nos governos, nos políticos; em 1911 som fixadas as primeiras normas polo governo português, mas o Brasil nom aceita. Actualmente há duas normas (deixando de parte o caso do galego): a brasileira (do grupo Globo) e a portuguesa (usada também nas ex-colónias). Houvo antes várias tentativas de acordo. O Acordo de 1990 é menos radical que o de 1986, tendo sido importante o contributo de umha delegaçom galega de observadores. Implica aceitar a importáncia que tem o Brasil para a língua (com 190 milhons de falantes entre 250), e iniciar umha dinámica interna na língua que a afaste das decisons políticas. No futuro, estas questons deviam ser competência do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP).

E porque é importante para umha Galiza que nom pode acompanhá-lo institucionalmente?

A. B. : Estarmos aí é afirmarmos a nossa pertença ao mundo da nossa língua. Foi um facto extraordinário a presença de representantes galegos – da Galiza civil e nacional, nom da regional e oficial.

A. C. : Em Lisboa apresentamos a posiçom institucional da Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa e a das Entidades Lusófonas Galegas. Tendo em conta a ausência de participaçom do governo galego, representamos a posiçom da Galiza. Além disto, a recepçom na CPLP e na Academia das Ciências de Lisboa evidencia uma predisposiçom de Portugal e do conjunto dos países lusófonos para a integraçom do nosso país nesse espaço, do ponto de vista cultural. Do ponto de vista político, parece que o Governo Galego deu algum passo nesta linha. A Academia Galega da Língua Portuguesa, que será constituída nos próximos meses, iniciará o relacionamento e colaboraçom institucional com as outras academias lusófonas. Estamos certos que os próximos anos servirám para um maior reconhecimento e presença do português galego na cena internacional.

A que se devem as reticências portuguesas?

A. B. : Os modelo português e brasileiro tenhem algumhas características dissemelhantes na expressom oral, e o Acordo talvez dependa demasiado disso, sendo mais estáveis os sistemas de línguas internacionais onde a escrita nom depende tanto da pronúncia (um inglês fonológico duraria pouco como língua internacional). Os portugueses som cientes que o Acordo é uma cessom maior pola sua parte que por Brasil, e eles sentem a língua de modo mui particular.

A. C. : Deve-se à incapacidade de alguns lingüistas notáveis, de alguns editores e de sectores da sociedade em se adaptarem à realidade presente. O português do século XXI é umha língua policêntrica. A questom que se pom em Portugal, e também na Galiza, é continuar à margem da unidade da escrita, ou aderir ao conjunto. Isto nom modifica pronúncias nem impede refletir as caraterísticas de cada umha das variedades regionais e nacionais.

O reintegracionismo foi unido a Lisboa...

A. C. : A AGAL permaneceu à margem dos Acordos Ortográficos em 1986 e 1990. A sua incorporaçom ao processo de unidade, em 7 de Abril, fecha umha etapa de divergências. As associaçons lusófonas continuaremos unidas, porque as tarefas e os reptos que venhem a seguir exigem colaboraçom. Contodo, isto nom acarreta que todos devamos dedicar-nos às mesmas atividades.

A. B. : O reintegracionismo goza de umha unidade difícil de encontrar noutros movimentos da Galiza, mesmo entre as posturas mais divergentes. Além disso, é muito fácil mantermos a mesma postura numha questom que já tinha sido bem defendida por umha delegaçom galega no próprio Acordo. Quando à AGAL lhe foi comunicado informalmente o convite, convidamos todas as entidades reintegracionistas para que a nossa voz fosse a de todos.

Para além das vossas intervençons, a vossa presença em Lisboa suscitou o interesse das outras delegaçons lusófonas?

A. C. : Sim, especiamente de Portugal e do Brasil, de onde recebemos convites para a participaçom em futuras actividades. Espero que os lingüistas saibam entender o sentido desta participaçom galega, desta conjunçom de vontades, e assumam a sua responsabilidade histórica.

Fonte original:

 

sexta-feira, 11 abril 2008 02:00

Com humildade e trabalho chegaremos longe

Ângelo Cristóvão com a estátua de Fernando Pessoa no café "A Brasileira" em Lisboa

Ângelo Cristóvão

6 Dezembro 2007:

O jornal Público edita, na página 14, uma notícia sob o título: “Parlamento prepara conferência internacional sobre Língua Portuguesa”. Associação de editores e livreiros quer ser ouvida por deputados sobre acordo ortográfico.

Três galegos, que combinaram um jantar no restaurante A Brasileira do Porto, comentam a notícia. Coincidem na necessidade de fazer todos os esforços para conseguir que as associações lusófonas galegas participem, sem exclusões, nesse evento.

7 Abril 2008:

A sociedade civil galega, por meio das Associações Lusófonas, participa de forma coordenada na Conferência Internacional sobre a língua portuguesa realizada na Assembleia da República de Portugal. A representação da Galiza inclui 2 oradores e 8 professores convidados. No dia seguinte, é recebida oficialmente na Academia das Ciências de Lisboa.

8 Abril 2008:

Jornal Público, pág. 3: “Livreiros e linguistas contra. Brasileiros, timorenses, ex-exilados e galegos, pró”.

“Foi esmagador o apoio manifestado ao acordo. Não apenas, como se esperaria, da parte dos envolvidos directamente nas negociações, como Helena da Rocha Pereira, Fernando Cristóvão ou Malaca Casteleiro. Mas também de associações galegas de defesa da lusofonia (o jornal La Voz de Galicia enviou um repórter), de Timor (Luís Costa: “Se não houver unidade ortográfica a confusão será grande, pois temos professores portugueses e brasileiros no país”) e da parte de antigos exilados políticos portugueses no Brasil. Dois deles, integrando a associação Mares Navegados, e o terceiro –coronel Pedroso Marques, presidente da RTP- num apelo emocionado à ratificação do acordo”.

Diário de Notícias, pág. 5: Galiza numa encruzilhada. Convidados a participar na audiência parlamentar, os representantes da Galiza revelaram, por um lado, a satisfação com um acordo que irá facilitar a comunicação com a CPLP mas, por outro, a preocupação por a Galiza não poder ainda integrar esta comunidade. “Julgamos que existem as condições suficientes para dar os primeiros passos neste sentido”, afirmou Alexandre Banhos, presidente da Associaçom Galega da Língua, lembrando a influência da língua e cultura portuguesas naquela região de Espanha. “Apesar do indiscutível avanço nessa direcção, a comunidade linguística desenvolve-se ainda em condições difíceis do ponto de vista legal e social”.

10 Abril 2008:

PGL: O Parlamento aprovou ontem por unanimidade dirigir-se ao Governo espanhol para «no prazo mais imediato possível» lograr a recepçom das televisões portuguesas na Galiza.

Caros:

Neste momento, depois de ler tanto comentário positivo às notícias de Lisboa, só posso transmitir um sincero agradecimento a todas as pessoas que nos mostraram o seu apoio nestes dias, na internet, e a quem colaboraram magnificamente em Lisboa para este sucesso coletivo. É emocionante ver o seguimento realizado no PGL, e também dos amigos de Portugal, através do sinal institucional da Assembleia da República. Os parabéns são para todos, mas especialmente devem ir para o Presidente da AGAL, Alexandre Banhos Campo, pela forma como levou o processo, e o gesto de ter alargado a participação a todas as associações lusófonas, sem exclusão.

Por outro lado, desejo manifestar a minha adesão e satisfação do texto apresentado e lido por ele. No comunicado da Associação Pró AGLP indicamos que “explica a posição institucional das Entidades Lusófonas Galegas, de que somos co-partícipes”.

Julgo que estamos iniciando uma nova etapa cheia de possibilidades, mas estas só podem realizar-se se formos capazes de adquirir compromissos. Já começamos a ver os primeiros resultados desta dinâmica de unidade, e estou certo que teremos mais notícias positivas nos próximos meses e anos. Com humildade e trabalho chegaremos longe.

Muito obrigado a todos.

Fonte original:

Mais info:

Celso Álvarez Cáccamo

Entrevista a Celso Álvarez Cáccamo

A Esmorga / MDL / PGL - Na sequência das I Jornadas de Língua que estão a decorrer em Ourense, nesta quinta-feira, dia 3 de Abril, a sala 04 da Faculdade de Humanidades será palco de uma interessante conferência ministrada pelo professor Celso Álvarez Cáccamo, um dos poucos sócio-linguistas galegos que pode presentar unha formação académica como tal. De certeza, as suas análises radicais não vão deixar indiferente ninguém.

Subordinada ao título "A perda da Lingua, as clases e as formas de capital", a conferência estará virada para dissertar sobre a substituição linguística, consistente esta em que uma língua ou variedade, simplesmente, deixa de utilizar-se como primeiro idioma no seio da família e nos grupos de amigos, e outra língua ou variedade ocupa o seu lugar. Os factores de vários tipos que entram em jogo neste processo serão analisados em profundidade por Álvarez Cáccamo.

Ainda, a sua exposição também estará virada para as diferentes formas do capital e das suas propriedades dentro do mercado linguístico e social na sociedade de classes, com o objectivo de compreender a perda da língua na Galiza, e, portanto, de imaginar maneiras de intervir para a inversão deste processo desde basicamente, ora uma óptica reformista, ora uma óptica emancipadora.

Como estamos a fazer já habitual durante estes dias a respeito das jornadas ourensanas, o Celso respondeu algumas questões que lhe apresentamos, desta vez as reflexões sobre quatro citações suas que nos pareceram suficientemente significativas ou provocadoras, para nos introduzir mais no assunto...

"Nom gosto de me definir como reintegracionista. Sou simplesmente escritor galego em português. Pratico a unidade da língua portuguesa como pratico a unidade da língua inglesa, que também escrevo".

(Celso Alvarez Cáccamo. Entrevista no Novas da Galiza nº 56, Julho de 2007).

Qualquer auto-definição é quase sempre nociva. Amiúde, uma auto-definição situa a focagem, o enquadramento, onde o adversário ideológico (que sempre existe) quer, não onde um quer ou não quer. O "reintegracionismo" é simplesmente a normalidade duma língua, de qualquer língua. Para a saúde mental, é mais prudente deixar aos adversários (não a um próprio) o problema de se auto-definir. Mas neste meu rechaço (intermitente) da etiqueta não sou nada original: demorei anos em compreender, por exemplo, o sentido da não-auto-definição doutras pessoas, como o Mário Herrero.

Ora, eu compreendo também a utilidade pragmática do vocábulo "reintegracionista". Se o "reintegracionismo" existe como categoria social, embora deformada (qualquer embalagem deforma a realidade), os "reintegracionistas" podemos utilizar o posicionamento que nos fazem outros para interpelá-los, interrogar o seu enquadramento com perguntas figuradas deste tipo: "Tudo bem, como quiseres: serei 'reintegracionista'; serei 'lusista'; escreverei 'em português', não em galego. Mas, diz-me de vez, faço ou não faço cultura galega?".

Se a sua resposta é Não, o exercício da procurada exclusão é transparente, e portanto inquestionável. Se a sua resposta é Sim, claro, então desmembram-se as escusas. E se é Sim, talvez, mas..., esse "mas" que resume o conflito linguístico imposto requer, em lógica ética e democrática, ser detalhadamente explicado. Isso já seria bastante para nutrir a ilusão de diálogo..

"A ideia elementar é que a língua é sempre uma questão de classe, e que, enquanto houver classes, haverá sempre alguma questione della lingua. Que não se saiba isto é terrível sintoma da descerebralização maciça".

(Celso Alvarez Cáccamo. "Último texto sobre a língua", artigo no PGL e Vieiros, 24 de Agosto de 2005).

Negar a existência das classes ou reduzi-las a uma trivial diferença resultante da diversidade humana (de gostos, interesses, etc.) nivelada por uma relativa comodidade da renda é uma velha táctica ideológica e pseudo-sociológica para impedir a ré-união da gente. E, se as classes sociais, construíveis (construíveis) no princípio da posição estrutural (se produzes ou não produzes; se te produzem; o que produzes) existem, é apenas lógico que devem ter alguma ligação com um recurso simbólico tão poderoso como a Língua como padrão, como Standard (isto é, estandarte).

Onde se viu que os grupos desiguais possuam qualquer recurso em igual quantidade ou forma, ou em comparável natureza? Que não se aprenda isto nas escolas além do velho indoutrinamento de que "Sabendo o padrão da Língua chegas mais longe" é sintoma da secura mental que nos invade. A perícia na Língua, claro, sempre classifica: class-ifica. Como o faz é uma pergunta possível. Qual Língua ou quais Línguas o fazem é outra. Se nos interessa reproduzir a lógica da class-ificação social a meio da língua, só nos interessará abordar a segunda pergunta, e construiremos a questione della língua em torno dum resvaladiço conflito entre "o español" e "o português" ou "o galego".

Mas se nos interessa apontar elementos de debate para romper essa lógica, teremos de concluir que é melhor, embora duro, renunciar ao nosso étnico amor filial a uma destas línguas e compreender a terrível contradição de "fazer língua". Teremos que perguntar-nos outras cousas, como: como classifica a língua? E concluiremos cousas que talvez nos façam tremer se, por natureza, socialização ou adquirida comodidade, somos pessoas indefensas perante as contradições.

A maior parte das vezes, porém, fazemos as duas perguntas (e mais) simultaneamente, sem distingui-las; daí a confusão do activismo linguístico galego.

"Foi pessoa que sentenciou essa aberração de "a minha pátria é a língua portuguesa", não é? Substituamos "portuguesa" por "galega", ou "galego-portuguesa", e a aberração é comparável. O povo e as elites são as duas faces da pátria, e esse é o problema. Cada pátria imposta preexiste e é eterna: uma inescapável mácula mental".

(Celso Alvarez Cáccamo. "Último texto sobre a língua", artigo no PGL e Vieiros, 24 de Agosto de 2005).

A metade da resposta está na resposta anterior. A Pátria (não as pátrias miúdas que as pessoas, livremente, cultivam para exercerem a política poética ou sobrelevarem a anomia diária), isto é, a "Pátria imposta", sempre requer dous elementos complementares para funcionar como totalizador imaginário: as elites sociais reais, e o Povo a-social irreal construído polas elites reais. Então, acho que nessa Pátria absoluta não há História como tal, como trajecto: na concepção a-social das elites que se chamam patrióticas, o nascimento duma Pátria seria um evento auto-contraditório.

Portanto, por definição a Pátria preexiste ao tempo e ao universo (que até tem um momento inicial, uma singularidade) e, como Deus, tampouco pode morrer. Jamais um autêntico patriota desejará a morte da sua Pátria (enquanto, polo contrário, um autêntico socialista desejará a morte do socialismo para que nasça o comunismo, e um autêntico comunista a morte do comunismo para que nasça o anarquismo). De maneira que o patriotismo não parece uma ideologia política, mas uma posição político-poética cosmogónica alimentada sobre e contra o povo histórico por elites muito pouco patrióticas, o cultivo de cuja retórica ajuda muito a obter subsídios nacionalistas.

E quando a língua se converte em Pátria (isto é, quando se converte em Língua), a diferença linguística é um atentado terrorista e surgem as negociações político-poéticas (em duas frontes) como miragem. Não nos enganemos: qualquer Língua sempre vai querer matar-nos.

"Nom é o meu papel julgar as Academias, porque reconheço que nom me interessam. Em geral, as culturas geram instituiçons deste género para defenderem os seus interesses, e eu nom me sinto implicado com isto".

(Celso Alvarez Cáccamo. Entrevista no Novas da Galiza nº 56, Julho de 2007).

Eu julgo diariamente as academias na minha prática ideológica interna, mas não é o meu papel: não concebo que para a recuperação dum idioma agonizante, como o nosso, as Academias possam ser um projecto intelectual interessante. Mas esse é o meu escoramento próprio (cada um tem o seu, ou muitos). Ora bem, eu quisera chegar a aprender a respeitar bastante o direito de cada pessoa e grupo humano, de cada grupo activista, a fabricarem as suas íntimas maneiras de situar-se no mundo e, após muitos anos, acabarem a vida com a sensação de que não tudo o que fizeram entre os demais e com os demais foi inútil para paliarem o arrepiante devalo do projecto humano. Este é um objectivo modesto, como é obrigado.

Obviamente, incluo-me neste desejo de respeito aos meus escoramentos: também eu tenho as minhas maneiras, diárias, de pensar que as minhas práticas não são de todo inúteis, de que até parágrafos como estes podem ter um efeito de, polo menos, diferença (preferivelmente de confusão) na percepção das cousas da língua por alguma pessoa que os leia. Ignoramos o futuro, não é? Existem fenómenos de estranha mudança que os físicos chamam "transição de fase" polos quais um estado aparentemente estável, por acumulação de forças (por acumulação de vontades), pode dar passo num instante a um novo estado radicalmente diferente, como a água que ferve de súbito como se cada partícula fosse consciente da fruição das demais (a consciência é um contínuo, não um absoluto). E, se unimos a isto, por excrescência retórica, o chamado "princípio de incerteza", então complica-se-nos mais, proverbialmente, a tarefa de predizer qualquer cousa.

Por outras palavras: talvez a língua galega ferva logo na Galiza, quase sem nos decatarmos, antes do que suspeitávamos, para se tornar naquilo que a ideologia já diz que é: em língua portuguesa. Então, se isto acontecer, talvez a Academia Galega da Língua Portuguesa tenha tido um efeito agora incalculado. Em qualquer caso, como sempre diz sabiamente Ângelo Cristóvão, é melhor estarmos preparados para uma nova fase (como, por outra parte, já estamos preparados para a desaparição do galego), enquanto continuamos, na vida, a resistir qualquer tipo de exclusão e dominação por mor da nossa liberdade de letras. Das letras galegas.

Obrigado por esta entrevista.

Fonte original:

Ângelo Cristóvão, Concha Rousia e Irene Veiga

Entrevista a Ângelo Cristóvão, presidente, e
Concha Rousia, vice-presidenta da Pró

A Esmorga / MDL / PGL - A Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa foi constituída em 1 de Dezembro de 2007, dia da Restauração da Independência e aniversário do primeiro acto público de Nunca Mais, com o objectivo de apoiar a criação duma Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP). Nesta segunda, 14 de Abril, Ângelo Cristóvão, presidente da associação, e Concha Rousia, vice-presidenta, participarão nas I Jornadas de Língua em Ourense apresentando este projecto na cidade das Burgas.

A ideia que os promotores têm da Academia como motor de integração da Galiza na lusofonia, difere doutros modelos académicos, pois neste caso pretendem «uma instituição nacional galega criada por iniciativa da sociedade civil, independente dos organismos do estado [...], que recupere e ponha em valor o nosso património linguístico e literário, ora maltratado, ora esquecido, ora deturpado», com bem indica Ângelo Cristóvão no web oficial da Associação Pró-AGLP.

Como bem sendo habitual durante o decorrer de todo este evento, lançámos uma série de perguntas às, desta vez, duas pessoas convidadas às Jornadas ourensanas, com o objectivo de conhecermos em primeira mão algumas das suas opiniões. Lembramos que a palestra em que estarão Ângelo e Concha decorrerá a partir das 20h00 no CS A Esmorga (rua Telheira, 9, rés-do-chão - Ourense).

Depois de terdes participado na histórica jornada em que uma delegação de galegos e galegas se fez ouvir no parlamento da República Portuguesa, a defender a unidade da língua, qual é a vossa valorização do que isto pode significar para o futuro?

Ângelo - É difícil enxergar agora, tão de perto, a repercussão desses eventos, mas estou certo que nos próximos meses e anos teremos mais notícias positivas para a Galiza.

Concha - Eu penso que nem me vai ser possível mesurar o significado desta jornada; até porque o efeito vai depender das múltiplas reacções que vá ir provocando nos diversos campos da Lusofonia. Para mim significa a integração e o reconhecimento definitivos da Galiza como parte essencial da Lusofonia.

Depois disto, alguém poderia dizer que o galego não é português, ou que o português não é galego, mas saberia que estava mentindo ou praticando a autonegação, algo ao que a gente daqui está muito afeita. Temos tantos preconceitos sobre nós mesmos e sobre a nossa cultura como sobre uma cultura alheia. Mas Galiza está a mudar.

Como surgiu em vós a necessidade de criar uma Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa e qual considerais que devem ser as suas funções?

Ângelo - Primeiro foi Martinho Montero que, numa revista propunha, entre as tarefas para o futuro, criar a Academia (acho que foi em 1994). Anos mais tarde, em comentários pessoais várias pessoas em diversos momentos fomos refletindo sobre a possibilidade, a conveniência e o momento adequado.

Finalmente, em Outubro de 2006, Martinho julgou que o lugar e a altura certas eram os Colóquios da Lusofonia, em que se produziu um interessante debate. As funções principais de qualquer academia da língua são três: institucional, editorial e como referente normativo. No caso da AGLP já começamos a exercer a primeira. Logo virão as publicações. A terceira função não me parece uma tarefa urgente.

Concha - Em mim, imagino que como em certo modo ocorre a todos os demais, a necessidade duma Academia surge quando me percebo que os que reconhecemos a nossa língua como todo o que ela é ficamos órfãos e sozinhos, sem ninguém a velar pola nossa língua nem por as pessoas que, com todo o direito do mundo, a usam com normalidade.

A academia terá múltiplas funções, a de ser a interlocutora com as outras Academias na Lusofonia, a de editar as produções agora ignoradas e menosprezadas polos organismos até agora existentes no nosso pais. Terá, em definitiva, a função de cuidar da nossa língua dentro do nosso território e a de interlocutora nossa no resto da Lusofonia.

Conta-nos como correram os trabalhos que tendes desempenhado como membros da diretiva da Associaçom Pró-AGLP, desde a fundação da mesma e quais podem ser os trabalhos prioritários da entidade para os próximos meses.

Ângelo - Quando foi constituída, em 1 de Dezembro de 2007, elaboramos uns estatutos. Logo começamos a organizar a associação. Em 14 de Fevereiro tivemos uma interessante entrevista com o Dr. Joan Martí i Castell, presidente da Seção Filológica do Institut d’Estudis Catalans.

Concha - Apesar do pouco tempo que levamos trabalhado levamos feito muito. Eu como vice-presidenta da Associaçom Pró-AGLP tenho participado em labores organizativas. Entre os trabalhos prioritários para o futuro estão a posta em marcha definitiva da Academia, ajudá-la a dar seus primeiros passos como tal Academia, tentar que estabeleça relações de colaboração com as Academias dos outros países, participar nos eventos culturais e linguísticos que tenham lugar no espaço da Lusofonia e procurar o reconhecimento social que tem que ter na Galiza, dando-se a conhecer, mesmo a través da publicação de um boletim.

Quais achais que podem ser os principais entraves para a criação da Academia Galega da Língua Portuguesa?

Ângelo - A Academia vai ser criada, sem dúvida, e aqui não haverá grandes dificuldades. Será uma entidade cívica com vocação de serviço público. A marca foi previamente registada no Reino da Espanha e na República de Portugal. Ora, para desenvolver todas as funções próprias desta entidade, serão precisos uns recursos.

Talvez o apoio económico seja a parte fraca, atendendo às circunstâncias sociopolíticas em que se desenvolve o País. Contudo, não precisamos milhões para produzir obras de valor. A internet fornece muitas possibilidades.

Concha - Penso que os custos económicos podem, em princípio, obrigar-nos a ter que ir mais devagar com os nossos projectos, acho que é só.

Ouvir áudio da palestra
[Atualização a 29 de abril de 2008]

Apresentação da AGLP nas Jornadas de Língua em Ourense

Descarregar áudio em MP3

Fonte original:

Intervenção de Luís Gonçales Blasco
nas Jornadas Somando Esforços pola Língua

O passado sábado, 16 de fevereiro, tivérom lugar no Museu Verbum - Casa das Palavras, em Vigo, as Jornadas Somando Esforços pola Língua, organizadas pela Associaçom Galega da Língua. Na segunda das Mesas Redondas agendadas, sob o título "Soluções, propostas e actuações na defesa da língua da Galiza", interveio Luís Gonçales Blasco em representação da Associação Pró Academia Galega da Língua Portuguesa.

O professor Gonçales Blasco apresentou o projeto da Academia Galega da Língua Portuguesa e os seus objetivos, “umha instituição que não nasce contra ninguém”, passando a explicar a génese da mesma, a situação atual em que se encontra o processo de criação e as dificuldades que enfrenta. O professor deixou claro que este novo projeto nasce para realizar o seu labor de forma independente, contribuindo para a visibilização da Galiza como país lusófono em âmbitos académicos ou institucionais lusófonos.

Mais info:

segunda-feira, 28 janeiro 2008 01:00

Quanto mede um Centímetro?

Valentim R. Fagim
Valentim R. Fagim

Grupo G: Aquelas pessoas que vivem o Galego como umha Língua.

Subgrupo G1: Recentemente veu a lume um Manual Galego de Língua e Estilo que bate o ponto e nos acautela naqueles aspectos onde nos deslizamos para o portunhol. Neste sentido é umha ferramenta imprescindível, original e única.

Subgrupo G2: Nas mesmas datas nasce a Associação Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa que servirá entre outras cousas para inserir a Galiza “institucionalmente” na Lusofonia. Neste sentido é umha ferramenta imprescindível, original e única.

Estando os subgrupos G1 e G2 integrados em G, seria esperável que ambas as notícias provocassem o seu regozijo. E provável, além de desejável, que na maioria dos casos assim tenha sido, mas também é certo que existem integrantes de G1 a acharem que G2 nom é patriótico/nacional e membros de G2 a considerem que G1 é regional.

Quanto mede entom um centímetro? Segundo a wikipédia, um centímetro é umha unidade de comprimento igual a 0,01 metros. Ao que parece isto é assim em cada um dos países do planeta Terra. Na Galiza, no entanto, às vezes um centímetro equivale a um quilómetro o que, especialmente com umha orografia tam acidentada como é a nossa, pode dar para não ver-se.

Fonte original:

Ernesto Vázquez Souza

Ernesto Vázquez Souza

Para Ângelo Cristovão a enxergar futuros que movimentam presentes

Toman do rexionalismo as formas, o aparente; pro se gardan ben d’azeutaren a esenzia: a autonomía do país.[...] Os nosos caziques rexionalistas fan algo polo xeito: coidan qe o rexionalismo consiste en toca la gaita cando lles conbén aos diputados cuneiros, aos Alcaldes de Real ordre, aos conzexales firmós, aos saiós todos qe nos matan. Pero a libertá de Galizia qe a parta un raio.

Andrés Laxe Carballal, («Caraute do Rexionalismo nas bilas galegas», em Estudios Gallegos, 22, Dezembro, 1916.).

Como ainda temos fresco o caso de não dar dinheiros ao Novas da Galiza à vez que vozes variadas e trazidas a caso desde La Voz de Galicia a Vieiros passando por El Progreso teimavam em falar de fantasmas como os «mínimos», o novo mapa sociolingüístico ou da norma RAG anterior a 2003, vamo-nos adiantar nesta nossa lógica inconseqüente de historiadores e fazer uma collage preventiva sobre o mal estudado Instituto de Estudos Gallegos. Uma operação de diversificação montada pelo ínclito Manuel Casás e apoiada pela Voz de Galicia quanto pelo sistema político da Restauração, a fim de reflectirmos sobre o presente e de adiantarmos um futuro bem próximo.

Manuel Casás

Manuel Casás


A história enceta pelos primeiros dias do fundamental ano 1918. Para surpresa e mofa da Irmandade da fala, começa a artelhar-se na Reunión Recreativa e Instructiva de Artesanos da Crunha, e promovido pelo seu activo presidente o ex-alcalde Manuel Casás, um projecto de Instituto de Estudios Gallegos. O Instituto destinar-se-ia à análise das problemáticas da Galiza e enunciava como objetivo principal:

dedicar sus afanes al estudio de los problemas que más directamente se relacionan con su vida espiritual y económica. Para ello se organizarán diversas secciones que comprendan los varios asuntos que han de integrar la amplia y compleja materia de su conocimiento. [...] [CASÁS, Manuel, «Unas palabras», en Reunión R. e I. de Artesanos. Instituto de Estudios Gallgos, Conferencias del primer cursillo, Enero 1918, Zincke, La Coruña, pp. 3-5.]

Para isto organizar-se-iam várias Secções que se intitulariam:

1ª Filología y Literatura.
2ª Ciencias Históricas
3ª Ciencias exactas, físico-químicas y naturales.
4ª Estudios Económicos.
5ª Estudios Sociales.
6ª Estudios pedagógicos
7ª Bellas Artes. [ibidem]

Indicava Casás que objecto principal do Instituto radicado no Circo seria a organização de palestras, investigações, informações, memórias e a publicações destas e:

Como base principal de nuestra labor, nos proponemos organizar en la excelente Biblioteca de este Centro [...] una sección especial dedicada a Galicia. [ibidem]

O Instituto apresenta-se com uma bela operação publicística, amplamente recolhida pela imprensa, que se iniciaria com um curso-congresso em Janeiro de 1918, recolhido em: R. R. e I. de Artesanos. Instituto de Estudios Gallegos, Conferencias del primer cursillo, Enero 1918, Zincke hnos. La Coruña, 1918.

As críticas à constituição e organização destas conferências quanto as negativas de intelectuais galegos a participarem da farsa, podem-se consultar no irônico e muito actual artigo: «Lembrándonos do P. Cobos. Instituto d’estudos sin estudos», ANT, 44, 30-1-18.

Os temas tratados no primeiro Curso do Instituto de Estudios Gallegos oferecem uma boa perspectiva da intenção com que nascem. As palestras, amplamente destacadas em La Voz de Galicia foram:

El Regionalismo gallego en su aspecto confesional, monárquico y unitário, Conferencia pronunciada por D. Alfredo García Ramos, Abogado, Secretario de la Audiencia Territorial de Galicia, Director de El Ideal Gallego, en 20 de Enero de 1918. pp. 9-25.

La Lengua Gallega, por D. Fernando Martínez Morás, Catedrático de las Reales Academias de la Historia y Gallega, Secretario general del instituto de Estudios Gallegos. pp.29-45.

De los renacimientos literarios y de otras cosas más, Por D. Juan Barcia Caballero, Catedrático de la Universidad de Santiago, Académico de número de la Real Gallega,etc. pp. 47-58.

Galicia y sus relieves, Conferencia en la Reunión R. e I. de Artesanos en 30 de enero de 1918 por Don Verardo(sic) García Rey, capitán de Infantería, capitán de la Academia de Toledo. pp. 61-77.

Galicia: su raza y su gênio, Conferencia leida e n la Reunión R. e I. de Artesanos en 31 de enero de 1918 por Antonio López Carballeira, Canónigo de la S.I. primado de Toledo, publicista. pp. 81-113.

O jeito que se desprende dos textos dos relatórios é o do regionalismo conservador que se enunciara na polêmica «Fiesta de La poesia gallega» em Ourense (Junho de 1917) e se continuará na Semana Regionalista de El Debate (Santiago, Julho 1917) e ainda nos «Xogos frorais» de Betanços em Julho de 1918. Regionalismo moderado aliado do tradicionalismo e espanholismo folclorista. Estes actos, autonomeados de Regionalistas, combatidos e torpedeados com grande polêmica pelas irmandades vão ser os que irão evidenciando a necessidade para as Irmandades mudarem o nome para Nacionalismo. O que finalmente se fará efectivo no Manifesto de Novembro de 1918 .

I.- Previa

Tendo a Galicia todal-as características esenciaes de nazonalidade, nós nomeámonos, de oxe pra sempre, nazonalistas galegos, xá que a verbe «rexionalismo» non recolle todal-as aspiraciós nin encerra toda a intensidade dos nosos problemas.

«Ao Pobo Galego. Manifesto da Asambleia Nazonalista de Lugo», 18/11/1918

Característico deste Regionalismo «Sano y bien entendido» é uma insistência maníaca na predominância da língua castelhana sobre a galega, um claro anticatalanismo, um regionalismo cultural, uma constante profissão de amor à pátria chica e fé patrioteira na grande e uma apocalíptica chamada aos supostos perigos que a unidade nacional de Espanha e a língua castelhana estava a sofrer pelas pretensões espúrias dos Regionalistas radicais. (vid. «Estudios gallegos. La Conferencia de ayer», El Noroeste, 21-11-1918).

É preciso ter em conta que nesse momento a palavra Regionalista já estendera o seu campo léxical e está de moda tal e como na década anterior estivera Regeneração. O êxito crescente, desde 1915, dos catalanistas da Lliga liderados por Cambó chegara no verão de 1917 ao seu cume quando puseram (prévia à greve-revolta de Agosto que vai arrefecer os ânimos da burguesia catalanista) em xeque a Restauração com a Assembleia de Parlamentários de Barcelona, referência para todos os republicanos e democratas e cujas conclusões levará Porteiro Garea no seu programa como candidato a Deputado em 1918.

Mas voltando aos relatórios. Especialmente virulentos nesta linha são os do Director de El Ideal Gallego, o de Barcia Caballero e o de Martínez Morás.

O ataque do primeiro não é surpresa alguma. O 1 de Abril de 1917, El Ideal gallego era fundado pelo crego José Toubes co lema de Diario Católico, Regionalista e Independiente, como efeito da influência regionalista que vinha do Leste. Não obstante, intenções e colaboradores (entre eles Blanco Torres, desde Março do 1917 a Fevereiro de 1919) logo se revelará um vozeirão da mais pura reacção, especialmente virulento no antinacionalismo do seu director chefe: Alfredo García Ramos.

García Ramos, neno-bem da burguesia crunhesa com juventude republicana e boémia, já percorrera um interessante caminho desde as filas republicanas pelas rotativas crunhesas e madrilenas até às conservadoras. Desde Tierra Gallega (onde dito seja de passada já abrira as portas em 1906 aos contrários à Academia Galega). Desde 1917 terá a sua mira liberal atenta no teatro Regionalista, especialmente no de Cabanillas (A Man de Santinha, desatará uma crítica feroz dele em 1919) que terá por mui perigosa propaganda destinada a impor o uso do galego.

O Ideal formará parte da ofensiva da direita católica na primeira e segunda década do século, permanecendo calmo, no período da Ditadura de Primo de Rivera, como oposição no primeiro biénio da República e, virulentamente, ante as eleições de 1933 e em 1936. (Sobre este jornal e as suas actuações políticas e lingüísticas nestes anos uma boa análise em: GARAZO, Antón, «Os anos evadidos: redactor de El Ideal Gallego», em Roberto Blanco Torres. O combate incesante, A Nosa Terra-A nosa Cultura, 20, Promocións Culturais Galegas, Vigo, 1999 pp.17-25).

Juan Barcia Caballero continuaria as polêmicas que desde o último terço do século anterior mantivera contra Murguia, os membros da Cova Céltica e a Liga Gallega, evidenciando que ser membro do status obrigava. O Decano de Medicina, popular autor em galego «popular», grande defensor do «X», das formas da «fala viva» e destacado «anti-aoísta» resistia-se de velho tanto à aproximação para uma ortografia etimológica «portuguesizante» quanto à identificação de Língua galega e causa nacional:

En amor a Galicia, a iso con frase non sei astra qué punto gráfica, atinada, douse en chamar pequena pátria, non penso que naide me gane, nin siquera me vaia ós alcances; pero teño a ise respeuto certas ideas propias que quizais non son as de todos. Non se me antoxa por caso que pra facer profesión de Fe gallega, seia preciso falar sempre i en todas partes na nosa lengua, como si niso soilo consistira todo; e moito menos, por de contado, si com eso se quer ou se intenta dar a entender menosprecio ou abafallo pra a castellana. Gallego de corazón, non penso que ise amor á miña terra poida opoñerse nunca ó meu amor a España; e si no meu peito tem um altar a bandeira azul e branca, outro non menos santo nin menos reverente tem a gualda e roxa, e asi como non sei tolerar, nin quero, que diante de min se aldraxe a Galicia, do mesmo xeito nin sei, nin quero facelo que se faga a España. Tan gallego coma o que mais, pero tan español coma gallego (Juan Barcia Caballero: «Discurso Contestación [de ingreso na Academia Galega]», em BRAG, ano V, nº 35, Coruña, 20/04/1910, p. 252-257).

Barcia Caballero publicara o ano anterior uma longa crítica literária a «Da terra Asoballada», (El Eco de Santiago, 8-8-1917) que fora em realidade um duro ataque contra a nau de proa da nascente literatura política. Nessa resenha literária chegará a intitular o movimento de revolucionário e separatista, contextualiza mui correctamente o carácter simbólico de quem os crunheses vêm de nomear como novo vate em substituição do recentemente falecido Eduardo Pondal.

López Carballeira como F. Martínez Morás, figuram entre os redactores do primeiro número de ANT, («A xente d'este boletín. Redautores e colaboradores», A Nosa Terra, 1, 14-11-1916), ainda que bem aginha se afastarão deste regionalismo político a virar em Nacionalismo. Como destacou Vitor Casas:

Resulta certamente curioso ollar cómo algúns dos nomes que nos seus comenzos figuraron como colaboradores, por figuraren tamén nas Irmandades, cando éstas eran ainda unha cousa sin defiñir nin intervención na política galega, foron máis adiante nemigos do galeguismo atal e como nós o sentimos e practicamos que naturalmente garda do concepto dos outros unha longa distancia.

Foi o tono de progresivo acentuamento nacionalista, francamente nacionalista, que Vilar Ponte imprimiu ao boletín o que á par que ia creando unha concencia n-ese senso determiñaba o alonxamento dos que non pasaban máis aló do «rexionalismo». «A Nosa Terra» foi unha mañifica peneira. (Vítor Casas Rei, «Historia sintética do boletín A NOSA TERRA», Nós, 139-144, Xulio-Nadal 1935, p. 183-185.)

López Carballeira, foi um sacerdote e escritor à moda, dos líricos, atento por vezes a temas polêmicos mas inofensivos: Santos galegos, história local, maçonaria, questão e mistério do feminino (não feminismo nem reivindicação da igualdade), as novas religiões, teosofia. Um regionalista.

Fernando Martínez Morás

Fernando Martínez Morás

De especial interesse, poderíamos classificar o discurso de marcado carácter antigaleguista, tanto no político como no lingüístico de Fernando Martínez Morás (A Cruña, 1885-León, 1937). Este activo publicista crunhês, filho de Andrés Martínez Salazar foi mudando o seu inicial e incipiente regionalismo. Membro da Academia Gallega, na que colabora desde os primeiros números do Boletim e membro fundador da Irmandade e colaborador de ANT (Vg. editorial 24-11-1916) foi passando do republicanismo ao liberalismo primeiro, com uma progressiva assimilação a elementos mais conservadores, até se posicionar, mesmo a favor dos alçados em 1936.

Secretário do Circo de Artesanos no agitado período da Presidência de Casás (1909-1921) e envolvido com ele nas estranhas vendas de terrenos a Dionisio Tejero (director proprietário de El Banco de La Coruña, financiador das Campanhas localistas de Casás como Alcalde (1916-1917) e accionista de La Voz de Galicia) assumiu a secretaria do Instituto de Estudios Gallegos.

Nas eleições de 1920 foi eleito concelheiro pelo partido Liberal democrata de García Prieto, com apoio de La Voz de Galicia. É, como secretário da Real Academia Galega, desde 1927 até à sua morte um dos principais responsáveis pola mudança de carácter que tem a entidade entre a morte de Murguia (1923) e a presidência de Lugrís (1934-1936).

Em 1933 torna-se secretario do Partido Republicano Conservador de Miguel Maura, derivando para a direita e secundando o Golpe de Estado de 1936. Morre na frente, como jornalista de guerra. Homem de La Voz de Galicia, da qual chegará a ser principal redactor e constante presença em actos culturais localistas. Secretário de Manuel Casás exemplifica o intelectual protótipo que actuará decote às ordens do status quo. Sendo favorecido com diversos postos: Professor da Escola de Comercio; Redactor chefe de La Voz de Galicia, Secretário da RAG, Idem da Academia de Belas Artes, Estudios gallegos, Partido Republicano Conservador, Presidente da Filarmônica, Vocal da sociedade de rádio-escuita...

É evidente que o conteúdo das palestras é contra o êxito que desde Março de 1917 está a ter o movimento associativo das Irmandades da Fala, cada vez mais virado à intervenção sócio-política. O Instituto de Estudios Gallegos aparece justo no momento que as nascentes Irmandades consideram apresentar-se às eleições a Cortes de 1918, contando com o apoio da Lliga e do próprio Francésc Cambó, que comprará para a propaganda regionalista na Galiza (sonhando provavelmente com uma aliança regionalista catalano-galaica) o jornal crunhês El Noroeste. (Mas esta é uma mui longa e escabrosa história).

A 2 de Fevereiro de 1918, anunciaram-se os candidatos a deputados e a Irmandade da Fala começa um ciclo de palestras. Inaugura Villar Ponte apresentando a Johan Vicente Viqueira quem desenvolve o tema «Os problemas educativos de Galicia». A 3 de Fevereiro, chega de combio à Crunha Pedro Rahola chefiando uma representação do catalanismo, a quem aguardavam Pedro Muntañola (homem de Cambó radicado na Galiza) e um pequeno grupo de Irmãos da Fala, os quais, segundo a imprensa da época «saludaron a los viajeros con aplausos y vivas a Cataluña y a Galicia libres». («Elecciones. La Campaña Regionalista», El Orzán, 4-2-18).

As oito da noite do mesmo 3, no local da Irmandade, o catedrático auxiliar da Universidade de Compostela Luis Porteiro, inaugurava a campanha com uma palestra-comício intitulada «A nosa loita». A oratória de Porteiro foi recebida com calor e entusiasmo, centrou-se na campanha eleitoral, versando sobre o caciquismo e manhas nos outros candidatos e manifestou a sua oposição ao sistema político actual. Depois falaram Vilar Ponte e o Sr Rahola que manifestou a sua fé na renovação de Espanha. Para findar cantou-se o Hino e acompanhou-se aos catalães até à sua hospedagem (Dados em El Orzán e La Voz de Galicia, 4-2-1918).

A campanha regionalista foi terrivelmente atacada por quase toda a imprensa galega. Especialmente hostis mostraram-se as páginas de La Voz de Galicia de Janeiro e Fevereiro de 1918, que fazem campanha a prol do seu principal acionista José Mª Ozores de Prado.

Na secção «Tribuna libre» de Janeiro e Fevereiro desenvolver-se-á uma linha de opiniões anti-regionalistas, baixo uma aparente linha objectiva de debate «Tribuna Libre. Cartas al Sr. Cambó. Sobre el regionalismo político y económico de Galicia», La Voz de Galicia, 24-1-1918. Continuado com artigos de Casás, ataques direitos, sem possibilidade de réplica (o que se denunciará satírico em ANT).

Recolhem-se, entre estas opiniões e comentários anti-regionalistas, em destaque as amplas resenhas dos actos e discursos do Instituto de Estudios Gallegos:

- «En el Circo de artesanos. Instituto de Estudios Gallegos», La Voz de Galicia, 18-1-1918
- «En la Reunión de Artesanos. Estudios Gallegos», La Voz de Galicia, 21-1-1918
- «En la Reunión de Artesanos. La conferencia del Sr. Martínez Moras», La Voz de Galicia, 23-1-1918;
- «En el Circo de artesanos. La Conferencia de Barcia Caballero», La Voz de Galicia, 28-1-1918;
- «De la reunión de Artesanos. Conferencia del Capitán García Rey», La Voz de Galicia, 30-1-1918
- «Estudios Gallegos. La conferencia del canónigo López Carballeira», La Voz de Galicia, 1-2-1918; tamén 8-2-1918.

Não casualmente numerosas páginas de opinião são ofertadas às duras palavras do próprio Manuel Casás (e de Martínez Morás):

- «Tribuna libre. El Regionalismo en Galicia. El idioma y el imperialismo catalán», La Voz de Galicia, 13-1-18
- «Tribuna libre. El Regionalismo en Galicia. La resurrección de los dialectos locales», La Voz de Galicia, 22-1-18;
- «Tribuna libre. El Regionalismo en Galicia. Las regiones se españolizan por el idioma», La Voz de Galicia, 2-2-18;
- «Tribuna libre. El Regionalismo en Galicia. Restauración de los idiomas nacionales. Los Felibres», La Voz de Galicia, 2-2-18;
- «Tribuna libre. El Regionalismo en Galicia.Enseñanzas de la última jornada. Mirando al porvenir. Acción Gallega», La Voz de Galicia, 28-2-18.

Barcia Caballero escreverá também sobre «Regionalismo»: La Voz de Galicia, 26, 27 e 30 de Janeiro, 1918. E, também nesta série é de destacar, a uma vez mais pontual, entrevista a Noriega Varela, escritor «diglóssico» nada favorável à politização do galeguismo e do galego: «El Cantor de Nuestra Montaña. Noriega Varela», La Voz de Galicia, 5-2-1918.

Barcia Caballero

Barcia Caballero

La Voz de Galicia do 16 de Março de 1918, anuncia a segunda série de palestras do Instituto, que agora conta com uma subvenção de 500 pesetas concedidas pelo Marquês de Alhucemas, em nome da presidência do Conselho de Ministros e que seriam dedicadas a imprensar as Conferências do primeiro curso.

O Instituto, curiosamente, esvai-se, passado o susto das eleições (cuja análise deixamos para outro dia) e depois da rotura do Catalanismo com o Nacionalismo galego em Agosto de 1918 motivado tanto pelo controlo de El Noroeste como pelas inclinações dos homens de Cambó (Muntanyola e Rahola) mais favoráveis ao regionalismo espanholeiro que é quem leva finalmente os votos às cortes.

26 de Setembro de 1918, porém, é a data em que aparecem assinados os Estatutos desta sociedade.

Artículo 1º. El Instituto de Estudios Gallegos tiene por misión investigar sobre todos los aspectos de la vida regional, fomentar la constitución de una completa "Biblioteca de Galicia", y difundir sus estudios, procurando el acrecentamiento de la cultura y del interés de los habitantes del país en asuntos de carácter galaico. [Estatutos del Instituto de Estudios Gallegos. Junta de Gobierno, Garcybarra, La Coruña 1918.]

Nessa altura, as definições do Instituto, mais ambiciosas e completas, parecem fazer eco das palavras de Porteiro sobre a necessidade de criar uma espécie de Seminário de Estudos Galegos na Universidade, vertidas no seu breve ensaio A los gallegos emigrados (PORTEIRO GAREA, Luis, A los gallegos emigrados, Propaganda das Irmandades da Fala, La Papelera Gallega, La Coruña, 1918, p. 23).

A aparição dos estatutos é saudada, desde A Nosa Terra, como uma espécie de refundição de carácter propagandístico. Para os redactores de A Nosa Terra, muitos sócios do Circo, a atitude de Casás soa a auto-elógio e preparação da sua volta à política. A 15 de Setembro inclui a seguinte nota, na secção «Peneirando» do idearium irmandinho, com todas as chaves de oposição:

Constituíuse un Instituto de Estudos Gallegos na Cruña. ¿Pero non se constituira já o ano pasado? Parécenos que si. E aquele instituto, o mesmo de agora, non servirá para nada.

Porque o que nele estúdese, ja se ven estudando na “Academia Gallega”. Servirá para erguer vanidades e para apoiar inconscientemente ao centralismo. Será enimigo do noso idioma. Polo mesmo amigo da despersoalización de Galicia.

Mais todo isto non é o objeto do Instituto. E outro ainda. É cousa de imitación. Mais de mala imitación ou de imitación do malo.

Porque o Instituto de Estudos gallegos –valeiro do espírito que tivo o de Ribalta- non semellaráse nen ó de Euskadi, nen ó de Cataluña.

Será un Instituto que nace con o pensamento de organizar unha gran Asambleia, onde os estudos sejan o de menos e onde as festas collan ben: Un Instituto que ten por fin – ou moito nos trabucamos- conseguir que o Rei veña a Cruña, como foi a Oñate.

A raiña Galicia, libre e soberana, dentro dunha forte confederación; a terra irredenta, isa... pouco lles importa á maioría de estudantes do novo Instituto.

Verédelo logo. (Destacados nossos) [A Nosa Terra, 69, 15-10-1918]

A presidência de Manuel Casás e a secretaria de Martínez Morás de forma vitalícia, o cariz conservador e culturalista que toma a sociedade (a pesar de contar na sua presidência honorária com Murguía e Martínez Salazar e nas suas Secções com Ugio Carré Aldao ou Cesar Vaamonde Lores), faz-se rapidamente alvo das críticas de A Nosa Terra. («Una interesante carta. As mañas do laberquismo rural no ‘Circo d’Artesanos’», ANT, 72, 15-11-18. Réplica de Martínez Morás e contrarréplica «O do ‘Circo d’Artesanos’», ANT, 73-74, 5-12-18).

Os diversos achegamentos e distanciamentos de um home do sistema, Manuel Casás a estas figuras só obedece a uma práctica de legitimação em instituições que lhe haviam servir de plataforma (Circo, RAG). Pois pouco depois começará uma projeção que o levará a ganhar para as actividades do seu Instituto a subvenção que a Deputación crunhesa acordara para a Academia Galega, que, neste ambiente, continuava a ser vista como uma contra-instituição.

O Instituto de Casás, continuará o seu fantasmal labor, sendo recuperado em momentos de interesse para o sistema, especialmente ante o processo estatutário, para o que ressuscitando elaborará um localista e minguado Projecto de Estatuto de Autonomia em 1932. Para ver cumpridos os projectos de Porteiro, haverá que esperar até à fundação do Seminário de Estudos Galegos no ano 1923.

Porém, a influência de Casás no Circo só se manterá até 1919. Trás 8 gerências consecutivas dele, uma operação conjunta da Irmandade e os republicanos próximos a Médico Rodríguez, substitui-lo-ia da Presidência. Logo de debater em assembleia muito quente as vendas de solares, pouco claras, realizadas a favor de Dionisio Tejero, a RR e I de Artesãos elegeu nova directiva em 14 de Dezembro. Manuel Casás e Martínez Morás nunca devolveram, ainda o requerimento judiciário suspeitosamente congelado depois da proclamação da Ditadura de Primo de Rivera, os livros de contas e vários documentos da Sociedade.

E chega por hoje. Ia dizer clássico e solene aquilo de «Nihil novum sub Sole» e até fazer de futurólogo a respeito dos mortos que ressuscitarão, os ataques que se poderão ler, as saudosas entrevistas e os caminhos que reabrirá a imprensa galega em quanto a Academia Galega da Língua Portuguesa encetar o seu caminhar ou quando como efeito de uma vontade colectiva os diferentes núcleos associativos reintegracionistas se façam mais e mais presentes na sociedade, mas -como sei pouco latim- prefiro as razões de Marisol e saber que «a vida é uma tômbola».

Fonte original:

Mapa do Llengües Vives

aragonés (4), astur-lleonés (2), català (6), euskara (3),
galaico-português (1), occitan (5), sardu (7)

O número 64 do Llengües Vives, boletim da actualidade lingüística do sudoeste europeu, noticia o debate sobre a recepçom das televisões portuguesas na Galiza e a criaçom da Associação Cultural pró Academia Galega da Língua Portuguesa, além de fazer um breve repasso a outras notícias de actualidade.

Associação Cultural Pró Academia Galega da Língua Portuguesa

Em 2006, durante o V Colóquio Anual da Lusofonia (Bragança), o catedrático Monteiro Santalha relançava a ideia de criar uma Academia Galega da Língua Portuguesa. Constituiu-se para tal fim umha Comissom Promotora da AGLP, que em Outubro de 2007 realizou umha apresentaçom da proposta na Faculdade de Filologia da USC, com a presença dos professores Malaca Casteleiro da Academia de Ciências de Lisboa e Evanildo Bechara da Academia Brasileira de Letras. Agora, em Dezembro de 2007, acaba de ser criada a Associação Cultural Pró AGLP, presidida por Ângelo Cristóvão. Para além disso, a marca AGLP já foi registada oficialmente nos dous estados ibéricos (www.aglp.net).

Llengues Vives, núm. 64. Janeiro de 2008.

Capa do Llengües Vives 64

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