Info Atualidade (365)

Associação Pró Academia Galega da Língua Portuguesa A nova associação nasce para dar apoio a uma futura Academia Galega da Língua Portuguesa

Luís F. Figueroa - Não é uma novidade a proposta de criação duma Academia galega lusófona, ideia recorrente no movimento reintegracionista desde os anos 80, e finalmente relançada em Outubro de 2006 pelo catedrático da Universidade de Vigo, o professor Martinho Monteiro, durante o V Colóquio Anual da Lusofonia, em Bragança.

Também em 8 de Outubro de 2007 a Comissão Promotora da AGLP realizou uma apresentação da proposta na Faculdade de Filologia da USC, como os académicos Evanildo Bechara e Malaca Casteleiro.

Mas este sábado aconteceu algo de diferente porquanto se deu um processo de Assembleia Constituinte. A data escolhida, 1 de Dezembro, dia da Restauração da Independência e aniversário do primeiro acto público de Nunca Mais, simboliza à perfeição a conjunção das diferentes sensibilidades e posicionamentos sobre a língua das pessoas presentes.

Foi nesta data que cerca de 20 pessoas de diferentes âmbitos e organizações de defesa da língua (entre os quais destacados membros da Associaçom Galega da Língua, Associação de Amizade Galiza-Portugal e Movimento Defesa da Língua) se reuniram na cidade de Compostela com um objectivo comum: apoiar a criação duma Academia Galega da Língua Portuguesa.

Após um intenso e frutífero debate decidiu-se constituir a "Associação Cultural Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa" para o qual se aprovaram uns estatutos e uma Junta Directiva composta de 10 membros, prova evidente do compromisso das pessoas assistentes com o projecto. A Associação nascente tem como fim principal colaborar e contribuir para a criação da tão desejada Academia, e realizará todo o trabalho necessário para a sua constituição.

A Comissão Promotora conseguiu reunir neste encontro diferentes pessoas representativas das sensibilidades existentes no reintegracionismo muitas das quais, conscientes do passo à frente que o projecto implica, e da necessidade social de união arredor da defesa da nossa língua nacional, decidiram fazer parte da Junta Directiva desta nova associação, que ficou integrada pelas seguintes pessoas:

  • Presidente: Ângelo Cristóvão
  • Vice-Presidenta: Concha Rousia
  • Tesouraria: Isabel Rei
  • Secretário: António Gil
  • Vogais: Martinho Monteiro, Luís Gonçales Blasco "Foz", Ernesto Vázquez Souza, Francisco Paradelo, Rudesindo Soutelo, Luís F. Figueiroa

Além disso nesta reunião foi apresentado o DVD das Conferências realizadas na Faculdade de Filologia e a sua transcrição, DVD que será enviado gratuitamente a Universidades e centros de investigação lusófonos, Associações Culturais e comunicação social, na próxima semana.

Criação da Associação Cultural Pró-Academia Galega da Língua Portuguesa
1 de Dezembro de 2007

Mais info:

José-Martinho Montero Santalha

Instituição estaria já em processo de constituição
e visaria facilitar a incorporação da Galiza à Lusofonia

Ângelo Cristóvão - O V Colóquio Anual da Lusofonia, que teve por título "Do Reino da Galiza aos nossos dias: a Língua Portuguesa na Galiza", foi o lugar escolhido pelo professor José-Martinho Montero Santalha, catedrático da Universidade de Vigo, para expor e defender a ideia da criação da Academia Galega da Língua Portuguesa.

Foi a Quarta-feira, 4 de Outubro, aos 100 anos da criação da Real Academia Galega, que Martinho Montero Santalha lançou a ideia da constituição de uma academia galega da língua que facilite a incorporação da Galiza à lusofonia.

Entre os motivos expostos pelo professor para esta iniciativa, indica dois principais: a impossibilidade de colaboração com a Real Academia Galega – que, no seu endender, nas últimas décadas adoptou um modelo castelhanizante para o galego –, e a necessidade de a Galiza ter uma instituição capaz de a representar na CPLP e noutros organismos internacionais.

Não esqueceu o professor tratar os possíveis «obstáculos para uma iniciativa deste tipo», como os relativos a questões legais e organizativas. Contudo, considera que podem ser ultrapassados se houver vontade e compromisso com o projecto. Neste sentido fez um chamamento à participação, sem exclusões.

O debate registou nove intervenções do público, a maior parte a favor da iniciativa, enquanto outras, como a do professor Xosé Ramón Freixeiro Mato, apresentaram reticências. A questão mais discutida foi a pertinência do nome da instituição. A respeito disto salientamos algumas respostas de Montero Santalha:

«Continuar a falar de galego é um dos grandes problemas, eu creio que é um dos grandes erros continuar a chamar ao galego língua galega, porque nada ganhamos com isso e perdemos muitíssimo. Quer dizer, chamar-lhe galego por que? Por manter o nosso orgulho? Tiveram o mesmo problema os brasileiros, que utilizaram durante algum tempo no nome língua nacional, por não chamar-lhe língua portuguesa. Todo o mundo lhe chama língua portuguesa».

«A palavra tem uma força terrível, quero dizer, as palavras. Então, chamar-lhe língua galega ao que é língua portuguesa da Galiza para todo o âmbito lusófono é uma maneira de enganá-los, porque é uma maneira de fazer-lhes ver que isso não tem nada a ver com eles. Porque não se chama língua brasileira: chama-se língua portuguesa do Brasil. De modo que esta é uma das causas... Temos que ter uma instituição que para o resto do mundo lusófono seja claramente lusófona: língua portuguesa da Galiza, não língua galega. Esta é precisamente uma das causas de fazer-se [a Academia]».

A gravação do som pode ouvir-se na página web Versão Original, que também disponibiliza a comunicação do professor galego, mais uma transcrição da palestra, que inclui a «exposição de motivos» mais o interessante debate produzido.

Pequena Biografia de José-Martinho Montero Santalha

José-Martinho Montero Santalha nasceu em Cerdido (Galiza) em 1941. Frequentou o Seminário de Mondonhedo e, em Itália, realizou estudos de Teologia e Filosofia (Universidade Gregoriana de Roma). Doutorou-se em Filologia com uma tese sobre as rimas da poesia trovadoresca (em 2000, Universidade da Corunha). Muito cedo aderiu aos movimentos a prol da reintegração linguística, convertendo-se num dos principais promotores.

Durante a sua estadia em Roma (1965-1974) participou no grupo “Os Irmandinhos”, preocupados pela recuperação do galego na liturgia e na sociedade em geral. Nessa altura foi um dos assinantes do “Manifesto para a supervivência da cultura galega”, publicado na revista Seara Nova (dirigida por Rodrigues Lapa) em Setembro de 1974.

A começos da década de 80 participou na fundação de diversas associações culturais galegas, como as Irmandades da Fala, Associaçom Galega da Língua e Associação de Amizade Galiza-Portugal.

Tem publicado numerosos estudos em diversas revistas e congressos internacionais, sendo um dos autores mais prolíficos e respeitados da Galiza lusófona. Actualmente é catedrático de Língua e Literatura galega na Universidade de Vigo (Campus de Ponte Vedra). Alguns dos seus textos mais representativos são:

  • Directrices para a reintegración lingüística galego-portuguesa. Ferrol, 1979.
  • Método Prático de Língua Galego-Portuguesa. Ourense: Galiza Editora, 1983.
  • Carvalho Calero e a sua obra. Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 1993.
  • "A lusofonia e a língua portuguesa da Galiza: dificuldades do presente e tarefas para o futuro". Temas de O Ensino de Linguística, Sociolinguística e Literatura, Ponte Vedra-Braga, Vol. VII-IV, núms. 27-38 (1991-1994), pp. 137-149.
  • Oxalá voltassem tempos idos! Memórias de Filipe de Amância, pajem de Dom Merlim. Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 1994.
  • As rimas da poesia trovadoresca galego-portuguesa: catálogo e análise. Corunha: Universidade da Corunha, Faculdade de Filologia, 2000, 3 volumes, 1796 pp. (Tese de Doutoramento).

Mais info sobre o V Colóquio Anual da Lusofonia:

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Palestra do professor António Gil Hernández no contexto do ciclo
Língua, Literatura e Naçom
, organizado pela AC 'O Facho'

O vindouro dia 25 de janeiro, terça-feira, o ensaísta e professor António Gil Hernández, falará dentro do ciclo Língua, Literatura e Naçom, organizado pela Agrupaçom Cultural 'O Facho'. A sua palestra terá lugar às 20h00 na Fundación Caixa Galícia (Cantão Grande – Corunha) e versará sobre "Marinhas del Valle e a Lusofonia na sua obra poética".

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José Luís do Pico Orjais assina artigo no Anuário Barbantia 2010

Acaba de sair a lume o Anuário Barbantia 2010, publicação que todos os anos edita a associação do mesmo nome nas terras da comarca de Barbança. Entre os seus artigos destacamos o assinado por José Luís do Pico Orjais, músico tradicional e diretor do C.E.P. Xosé María Brea Segade de Taragonha (Rianjo), sob o título de "A Suite Rianjeira de Isabel Rei Sanmartim".

Tal e como explica do Pico Orjais, a Suite foi fruto do pedido realizado à professora Rei Sanmartim com motivo da inauguração do Museo Pedagóxico Castelao no C.E.P. Xosé María Brea Segade. Dessarte, no dia 14 de dezembro de 2007 foram abertas as portas do museu e estreada a Suite Rianjeira, sob a direção e guitarra da própria Isabel Rei, acompanhada na voz por Xurxo Varela Díaz e na flauta e adufe polo assinante do artigo.

A Suite Rianjeira resultou da harmonização e instrumentalização de seis peças dos cancioneiros galegos que apareceram recolhidas em Rianjo. Tal e como assinala do Pico Orjais, "apesar de contar com a intervenção ocasional de instrumentos tais como a voz, a flauta ou o adufe, a Suite Rianjeira é uma obra fundamentalmente guitarrística".

"Em certo modo -continua-, a obra resulta uma reivindicação da guitarra de concerto como um meio de expressão ótimo para a música patrimonial do nosso país".

O artigo publica na íntegra, na parte final, as partituras das seis peças que compõem a Suite Rianjeira: Como queres que navegue (alalá), Foliada rianjeira, Todos dizem que me caso (pandeirada), Alalá, Moinheira e Marinheiro de Rianjo.

segunda-feira, 27 dezembro 2010 02:00

O Acordo Ortográfico, 1990-2010

«Na ordem de prioridades da comunidade lusófona deveriam estar em primeiro lugar Timor-Leste e a Galiza»

Ângelo Cristóvão (*) - Duas resoluções adotadas nos últimos dias em Portugal assinalam a culminação do processo de integração institucional do Acordo Ortográfico, que demorou 20 anos a ser completado. Uma é decisão governamental de aplicação das novas regras da escrita no sistema educativo a partir de 1 de janeiro de 2012. A segunda, a votação da Assembleia da República, em 15 de dezembro de 2010, aprovando por unanimidade a proposta do seu presidente, Jaime Gama, para usar o Acordo Ortográfico no Parlamento a partir da mesma data. Isto implica que todas as publicações oficiais e textos escolares irão reger-se pelos mesmos critérios, na República Portuguesa. E acarreta também a criação de novos instrumentos de apoio, como prontuários e dicionários.

Assinado em 12 outubro de 1990 pela Academia das Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e delegações de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, com a adesão da Delegação de Observadores da Galiza, entrará plenamente em vigor depois de importantes órgãos da comunicação social, como os do Grupo Impresa, terem levado à prática progressivamente as novas regras, e de as mais importantes editoras terem publicado dicionários e vocabulários ortográficos conforme ao Acordo, como os da Texto Editora, Priberam informática - com o seu recente FLiP-8 - e a Porto Editora, empresa que acaba de lançar ao mercado a nova edição do Grande Dicionário da Língua Portuguesa.

Estamos observando, portanto, os últimos passos de um processo de decisão política cujas parálises e hesitações chegaram a pôr em questão a capacidade da comunidade lusófona de reunir vontades na questão da língua. No caminho, o texto foi alvo de dificuldades de diversa ordem.

As primeiras estiveram situadas no plano legal. A CPLP aprovou até dous protocolos modificativos do Acordo de 1990. O primeiro, na Praia, em 1998. O segundo, em São Tomé, em 2004, permitindo a adesão de Timor Leste, e a entrada em vigor logo que o terceiro país depositasse os instrumentos de ratificação do Acordo ante o governo de Lisboa. Destarte, em teoria, está em vigor em todos os países assinantes desde o 13 de maio de 2009. Mas governo e parlamento portugueses estabeleceram em março de 2008 um período de transição entre as velhas e as novas regras da escrita, até 2014.

O segundo tipo de dificuldades veio dos movimentos contra o Acordo Ortográfico, nomeadamente em Portugal, chefiados por alguns líderes políticos e mediáticos que, com ampla repercussão na comunicação social, se fizeram ouvir, reunindo até 100.000 assinaturas, o que só conseguiu demorar o processo por breve espaço de tempo.

Uma terceira ordem de questões referiu-se à coordenação no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), onde uma diversidade de circunstâncias políticas e económicas dificultaram o consenso necessário para que a defesa da língua e da sua unidade fizessem parte central das suas políticas. Felizmente, nos últimos anos algumas dúvidas foram sendo esclarecidas, especialmente nos países africanos. A recente tomada de posse na presidência do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), pelo professor brasileiro Gilvan Muller de Oliveira, pode abrir uma nova etapa nessa instituição.

No entanto, restam ainda outros âmbitos de atuação de não menor relevância, como o referido à construção de instrumentos que permitam fomentar e tornar patente a unidade do português, onde até agora eram reconhecidas duas normas para a escrita. A prevista elaboração do Vocabulário Ortográfico Comum será uma primeira prova de capacidade, tanto se for referida aos âmbitos científico e técnico, como entendida na abrangência da língua comum, pois ambas as leituras foram realizadas do texto do Acordo. Para este projeto o presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa, Professor José-Martinho Montero Santalha, já apresentou o contributo galego em sessão conjunta com a Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa, na capital portuguesa, a 7 de abril de 2009.

Outro foco de atenção é o referido aos espaços em que o português se acha numa situação mais fraca. Na ordem de prioridades deveriam estar em primeiro lugar Timor-Leste e a Galiza. Deixando à margem os percursos históricos e os condicionamentos políticos por que se distinguem ambos os territórios, uma cabal compreensão da questão deveria levar a uma maior atenção e a uma posição mais ativa.

(*) Secretário da Academia Galega da Língua Portuguesa.

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Resolução adota o Vocabulário Ortográfico do Português

O Governo português aprovou , no passado dia 9 de dezembro, uma resolução que determina a aplicação do acordo ortográfico da língua portuguesa no sistema educativo no ano letivo de 2011/2012 e na administração pública a partir de 1 de janeiro de 2012.

A resolução também adotou o Vocabulário Ortográfico do Português e o conversor Lince como ferramenta de conversão ortográfica de texto para a nova grafia.

Durante a apresentação da resolução, o ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira, lembrou que estava a decorrer um período de transição de seis anos para a plena aplicação do dito acordo, mas que atualmente «importantes órgãos de comunicação social já operaram a sua adaptação ao acordo ortográfico».

Destarte, já a partir de 1 de janeiro de 2012, o acordo ortográfico da língua portuguesa será aplicado no próprio Diário da República electrónico, como também em toda a atividade do Governo e dos serviços que dependem da administração pública.

Texto na íntegra da dita resolução:

3. Resolução do Conselho de Ministros que Determina a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo no ano lectivo de 2011/2012 e, a partir de 1 de Janeiro de 2012, ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo, bem como à publicação do Diário da República

Esta Resolução determina a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo a partir do ano lectivo de 2011/2012, inclusive. Determina também que a partir de 1 de Janeiro de 2012o mesmo Acordo seja aplicado na publicação do Diário da República, bem como, em geral, em toda a actividade do Governo e dos serviços, organismos e entidades na sua dependência.

Esta Resolução adopta, ainda, o Vocabulário Ortográfico do Português, produzido em conformidade com o Acordo Ortográfico, e o conversor Lince como ferramenta de conversão ortográfica de texto para a nova grafia, disponíveis e acessíveis de forma gratuita no sítio da Internet www.portaldalinguaportuguesa.org e nos sítios da Internet de todos os ministérios, ambos desenvolvidos pelo Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), com financiamento público do Fundo da Língua Portuguesa.

A aprovação da referida Resolução inscreve-se nas iniciativas levadas a cabo no decurso do período transitório de seis anos estabelecido para garantir a adaptação e a aplicação progressiva do Acordo Ortográfico em Portugal.

Nos últimos tempos, a adopção do Acordo Ortográfico por um número crescente de órgãos de comunicação social tem vindo já a contribuir para a familiarização da população com as novas regras ortográficas e a revelar que estão reunidas as condições para concretizar a necessária transição em novos domínios.

A adopção do Acordo Ortográfico, adoptado pelos oito países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), visa contribuir para a expansão e afirmação da Língua Portuguesa, através da consolidação do seu papel como meio de comunicação e difusão do conhecimento, como suporte de discurso científico, como expressão literária, cultural e artística e, ainda, para o estreitamento dos laços culturais. A harmonização ortográfica é igualmente fundamental para dar resposta aos cerca de 250 milhões de falantes, presentes em comunidades portuguesas no estrangeiro, nos países de língua oficial portuguesa ou, ainda, integrados no crescente número de pessoas que procuram a Língua Portuguesa pelas mais diversas razões, bem como para facilitar a afirmação da Língua Portuguesa no contexto das organizações internacionais e das novas tecnologias de informação e comunicação.

A Resolução aprovada prevê, ainda, que, a partir de 1 de Janeiro de 2011, sejam intensificadas as iniciativas de informação e de sensibilização dos funcionários públicos e dos cidadãos em geral, de modo a assegurar um esclarecimento adequado sobre as implicações do novo Acordo Ortográfico, designadamente através dos sítios dos diversos ministérios acessíveis ao público via Internet.

segunda-feira, 20 dezembro 2010 02:00

O Mariscal

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Ópera galega reestreada em versão de concerto sob a batuta
do diretor e compositor Joám Trilho Pêres, académico da AGLP

Isabel Rei Sanmartim - Era nos tempos da espada e o brasão. Uma maldição tinha caído sobre o país e a dor que padeciam as gentes fermentava em amargos pesares. Os rios desciam roxos e as brêtemas agoiravam a cada jornada maliagens e desgraças.

O forte Marechal vestia os seus carvalhos com a pele dos vassalos rebeldes e brindava em cuncas de ouro celebrando a saúde dos seus primos, os Reis Católicos, e dos primos dos seus primos, todos fortes e católicos senhores. Até que numa fria manhã de dezembro os mesmos fizeram rodar a sua cabeça pelo tapete pétreo de Mondonhedo.

Depois os primos passaram a ocupar o lugar do Marechal. As gentes que os ajudaram continuaram a ser governadas por eles. E às noites sentiam o duro brilho do gume bater nas portas, como se o Marechal regresasse do além para levá-los subitamente aos ermos de Castela ou da Flandres.

Mas uma vaga curativa de canções e romances estendeu-se logo por todo o país e durante séculos, de feira em feira, e de romaria em romaria, as bocas sorridentes dos anónimos troveiros explicaram o acontecido em rapsódicos arpejos a ludiar os sofrimentos daquelas altas e baixas personagens:

...de mim a triste Frouseira
que por traição foi vendida
derrubada na ribeira
que jamais se viu vencida...

E tempo depois o poeta Cabanilhas fez os seus versos, que é da música do povo da que mais se aprende. Se, como dizia uma, o povo é a gente, quem é poeta da gente é porque bebeu dos cantares populares.

Hoje quase ninguém se lembra do Marechal, acontece diverso com os católicos regentes, protagonistas em todos os livros de história. Mas no fundo não se sabe com certeza o que de verdade aconteceu entre Toledo e a Frouseira. Ficam só as melodias testemunhando a boca da gente, essa boca que nunca cala apesar de não sempre ouvirmos a sua voz. Viva, desliza a sua mensagem pelos corredores do tempo e sussurra os segredos de outras idades. Preciso é estar atento para entender a voz que sempre canta.

Ramão Cabanilhas esteve atento quando junto com Antão Vilar Ponte escreveu a magnífica obra de teatro O Mariscal: lenda trágica em verso, obra mestra do teatro galego, publicada primeiro na Lar em agosto de 1926, e depois em segunda edição pela Nós também de Ângelo Casal, em abril de 1929.

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Capas de Lar (1926) e Nós (1929)

A versão operística, realizada pelo arquiteto e músico Eduardo Rodrigues Lousada (1886-1973) foi estreada em 1929 e a partitura nunca foi editada. A representação, em que colaboravam mais de setenta músicos, visitou várias cidades galegas. A ópera, grandiosa, em estilo wagneriano, com instantes de expressionismo galego e longos recitativos, foi representada no seu dia por cantores e intérpretes amadores num ambiente rico em atividade artística, operística, teatral, política e literária, ao tempo que transido por uma forte oposição à divulgação de obras na língua nativa.

Foi assim que a ópera encontrou muitas dificuldades para a sua estreia. E não tanto pelas exigências do libreto quanto por essa mão escura que esmaga as oportunidades de mostrar no seu esplendor a opinião dos poetas.

O libreto foi elaborado pelo compositor da música seleccionando fragmentos da obra original e os cenários da representação foram desenhados por Camilo Dias Valinho. Numa resenha do boletim Nós pode ler-se, da provável mão de R. Outeiro Pedraio, uma síntese do trabalho coletivo que a ópera significou:

«O poeta trabalhou-na em versos de flama, de metal e de sangue; Vilar deu-lhe o ritmo cénico preciso pra fazê-la sentir pelo público de hoje e de amanhã. Lousada, a fundura e a perspetiva orquestral; Camilo, a plástica das paisagens e dos interiores».

A estreia do Mariscal, Nós, Ourense, n.º 66, 15.06.1929

A estreia foi um sucesso que provocou excelentes críticas na imprensa da época. Porém, depois da gira inicial não voltou a haver mais representações. Só alguma interpretação isolada em versão de concerto anos mais tarde. Para a representação de teatro também houve que aguardar um tempinho, até 1994, ano em que se realizou na modalidade de teatro de bonecos, no IES Francisco Assorei de Cambados.

Parece que a figura do Marechal galeguista ao estilo das Irmandades da Fala não era do gosto das autoridades de nenhuma época entre 1929 e 1994. Seria pelo sambenito de anti-castelhano que lhe puseram a começo do século? Pela sona popular que atingiu o massacre da Frouseira? Por causa do inevitável parentesco do Marechal com os seus degoladores? Ou seria pelas exortações galeguistas de algumas partes da obra que inflamavam as platéias? Em qualquer caso, e apesar de que ainda há maliagens nos ventos do Leste e os notáveis brindam em copos de ouro à saúde dos seus primos, justo é dizer que em 2010 conseguiu-se, depois de oitenta e um anos, reestrear a ópera.

Aconteceu nos passados dias 18 e 19 de novembro do ainda presente ano 2010. A ópera galega O Mariscal apresentou-se em Vigo e na Crunha, em versão de concerto. A interpretação, que contou com a colaboração de três cantores galegos, Teresa Nóvoa (soprano), Pablo Carbalhido (tenor) e Xavier Franco (barítono), foi realizada pela Orquestra Sinfónica de Galiza sob a batuta do diretor e compositor galego Joám Trilho Pêres.

Nota: a versão de concerto de uma ópera é aquela em que faltam os elementos da representação teatral: encenações, vestuário e interpretação das personagens. Os músicos situam-se no palco como num concerto normal e interpretam uma seleção de fragmentos da obra original. Neste caso Joám Trilho realizou essa seleção sobre a obra musical de Lousada.

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Fragmento da redução para piano do Prelúdio da ópera O Mariscal em edição particular de Joám Trilho

(Clicar em cima da imagem para ampliar)

Caia a chuva a caldeiros quando no Teatro Colom da Crunha começava o concerto. As madeiras policromadas da sala fundiam-se com as brumas do palco, ressaltando os músicos iluminados pelos focos e a curiosidade dos presentes.

«Ainda há ocos no teatro. Que se lhe vai fazer? Apesar dos jornais e dos anúncios, muita gente alfabeta tem os sensos fechados. Por outra parte, a gente bien... Mas somos tão rotineiros que inda nos lembramos da gente bien

A estreia do Mariscal, Nós, Ourense, n.º 66, 15.06.1929

Também desta volta muita gente alfabeta continuava a ter os sensos fechados. O teatro não estava cheio. Contudo, como afirmava noutro lugar Vilar Ponte, o público era seleto e eu diria que numeroso. Mas para não sermos tão rotineiros, não lembraremos a gente bien.

A seguir do prelúdio orquestral, vibrava a voz do barítono que punha som à voz do poeta, encarnando o cego trovador da grande história:

Em tempos romeiro, e em tempos soldado,
de moças belidas segrel namorado,
cantor de façanhas ao modo troveiro,
dos velhos rapsodos sou filho e herdeiro...

Ao chegar o descanso, depois da despedida entre Elvira, vassala galega, e Amaro, soldado castelhano encarregado da traição ao Mariscal, o público deixou repousar as intrigas pacegas e abandonou os assentos e o silêncio: No libreto, as duas colunas estavam cheias de gralhas em ambas as línguas, publicadas em papel satinado com a ajuda de numerosos e famosos patrocinadores institucionais. A evidência ficava ainda maior ao ouvir os cantores, pois eles pronunciavam as palavras certas que, por cima, toda a gente entendia. Mas no libreto as saudades viravam “saudables” e, naturalmente, “saludables”, em vez dos velhos rapsodos havia “dous lanuxes rapsodos”, no paço ficou “non pazo”, e assim por diante. Era como se os prístinos versos de Cabanilhas tivessem passado pela trituradora de vários corretores automáticos. Quem seria o responsável da desfeita?

Na segunda parte fizeram fragmentos do segundo e do terceiro ato, onde se ouviu a formosa ária de Joana, filha do nobre de Castrodouro, e acabou-se com a intervenção da céltica Velha, a representar a sabedoria do muito antigo e a abençoar com Graal pagão os que iam ser vítimas da justiça católica e real. No fim do concerto o público desatou a aplaudir e diretor e cantores saíram ao palco várias vezes, partilhando as honras com os integrantes da excelente orquestra.

No meio dos bravos o diretor levantou por duas vezes a partitura de Lousada em reconhecimento do autor, sem reparar em que, com esse gesto, partitura e diretor elevavam-se mutuamente sobre o acompassado bater do público. Joám Trilho pretendia, como Vilar Ponte em 1929, passar despercebido perante a calorosa salva de palmas que agradecia a sua cuidadosa interpretação e empenho na organização do concerto.

Já de volta para Compostela, sob a chuva incesante que caia da noite negra, entanto rebuliam no corpo as impressões do momento pareceu-me volver a ouvir a voz da soprano no último alalá, que na versão encenada seria cantado fora do cenário, como caminhando para um lugar distante a modo de despedida:

Manselinho branco orvalho
que pôs báguas na erva mol...

Orvalhinho que o ar abala
como um pano que di «adiós»...

Os sucessos de 1483 tiveram muitas repercussões na Galiza. E não foi a menor a de que poetas, músicos e artistas, conhecidos e anónimos, enxugaram através dos tempos aqueles prantos com a sua voz inextinguível.

Mas, é que alguém tinha que cantá-lo...

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Quero agradecer a Joám Trilho, maestro e académico da AGLP, o ter-me recebido na sua casa e conversado sobre o seu trabalho na ópera de Lousada, bem como toda a informação que amavelmente me forneceu.

Para uma melhor e maior explicação de todos os acontecimentos relacionados com esta obra veja-se o livro de Emilio Xosé Ínsua López Sobre O Mariscal, de Cabanillas e Villar Ponte, UDC, 2005, de onde tirei grande parte dos dados referidos nesta resenha.

Capa de Traditional Marking Systems: A Preliminary Survey

Co-editado pelo académico Joám Evans Pim, conta com o apoio da AGLP

 Acaba de vir a lume o volume "Traditional Marking Systems: A Preliminary Survey," editado por Joám Evans Pim, académico da AGLP, junto com Sergey A. Yatsenko e Oliver T. Perrin. Trata-se de um volume coletivo, de mais de uma vintena de autores, que examina, desde vários pontos de vista e desde os tempos mais remotos, o fenómeno das marcas, aqui denominadas tamgas, nas comunidades humanas do passado, mas também do presente.

A edição do volume conta com o apoio da Academia Galega da Língua Portuguesa (menção que consta nos créditos) e irá servir como base para um estudo maior centrado na Galiza.

No volume participam com os seus trabalhos os seguintes autores: Gaybulla Babayarov, Catherine Baroin, Chandreyi Basu, Napil Bazylkhan, Sir John Boardman, Alexey V. Chernetsov, Jean-Pierre Digard, Joám Evans Pim, Murtazali S. Gadjiev, Imre Gráfik, Paul Harthoorn, Sinclair Hood, Caroline Humphrey, Jangar Ilyasov, Domenico Isabella, Étienne Landais, Osman Mert, Boris N. Morozov, Samat K. Samashev, Zainolla S. Samashev, Rem A. Simonov, Tuve Skånberg, Takashi Osawa, Mehmet Tezcan, Oliver Timken Perrin e Anton C. Zeven.

Os ditos trabalhos percorrem diversos aspetos da marcação nas comunidades humanas de vários continentes. O volume leva inúmeras ilustrações, debuxos, fotos, imagens, sinais para tratamento informatizado etc., e desprega toda a moderna investigação e erudição dos autores.

As investigações publicadas visam provocar no leitor inúmeras reflexões. Estas reflexões revelam-se muito esclarecedoras quando consideramos que até o próprio conceito de sociedade está em questão desde há bastante tempo entre certos poderosíssimos grupos dominantes à escala planetária e esse poder serve-se em muitos casos de uma marcação dissimuladamente moderna, e até pós-moderna e supostamente libertadora.

O livro pode ser adquirido ao preço de 11.89 euros através da internet aqui.

José-Martinho Montero Santalha, presidente da AGLP, participou no evento
com a leitura do poema "A palavra de Dom Ricardo Carvalho Calero"

 AGLP / PGL (*)- O centenário do nascimento de Ricardo Carvalho Calero, vulto principal do reintegracionismo e Membro de Honra da Associaçom Galega da Língua, está a mobilizar pessoas de sensibilidades muito diferentes, de toda a Galiza e mesmo do exterior, que reivindicam a atualidade do seu legado. O ato central aconteceu o sábado em Compostela, no passado dia 30 de outubro de 2010, com o descerramento de uma estátua na sua honra.

A estátua foi colocada muito perto da casa da rua Carreira do Conde, onde o professor Carvalho Calero residiu os últimos anos da vida; e do liceu Rosalia de Castro e da que foi sede da Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela, na Praça de Maçarelos, onde exerceu a docência de língua e literatura, sendo titular da primeira cadeira universitária.

O monumento foi promocionado pola Fundaçom Meendinho, que solicitou contributos populares e de diferentes entidades e instituiçons. O principal foi da associação de empresários graniteiros do Porrinho, que cedeu a base, de Rosa Porrinho, sobre a que repousa a estátua, elaborada polo escultor José Molares, quem estava também presente.

AGLP no evento

José-Martinho Montero Santalha, como presidente da AGLP, qualificou o ato de homenagem como "de justiça à memória do mestre Ricardo Carvalho Calero", de quem destacou a defesa da língua e o estudo da nossa literatura. Leu o seguinte poema de homenagem, intitulado "A palavra de Dom Ricardo Carvalho Calero":

Dom Ricardo Carvalho Calero, voz amiga,
que ecoa na folhagem da carvalheira antiga:

por palavras de sábio, por exemplo de mestre,
transforma num milagre a Galiza silvestre,

e na terra queimada faz renascer as flores,
e nos corações limpos arder velhos amores.

Com ciência e com carinho, sem maltrato nem míngua,
orquestra um cantar novo na nossa velha língua.

E ressoa a mensagem que vem de antigas eras,
mas que leva guardadas outras mil primaveras.

Viva o fruto da ciência, do amor e do trabalho,
viva a palavra viva do professor Carvalho!

Oradores

O ato foi apresentado por Margarida Martins, da Fundaçom Meendinho. Na continuação participaram diversos oradores, em representação de instituições e entidades diversas: Javier Garbayo e Manuel Fernández Iglésias, vice-reitores das universidades de Santiago de Compostela e Vigo; Maria Pilar García Negro, do Departamento de Galego-Português da universidade da Corunha; José-Martinho Montero Santalha, como presidente da AGLP; José Paz, como presidente da ASPG-P; Valentim Rodrigues Fagim, presidente da AGAL; Guadalupe Rodríguez, vereadora do Concelho de Santiago; Elvira Cienfuegos, também representante do Governo Municipal de Compostela; Margarida Carballo Calero, filha do homenageado; Ramiro Parracho Oubiña, secretário confederal da CIG; Alexandre Banhos, como presidente da Fundaçom Meendinho.

Descerramento e hino galego

Na continuação aconteceu o descerramento da estátua, um magnífico monumento de bronze de José Molares, como ficou assinalado.

Na base, no frente, além do nome de Ricardo Carvalho Calero constam “Ferrol. 30.10.1910” e “Santiago de Compostela. 25.03.1990”, como referência às cidades e datas em que nasceu e morreu, respectivamente.

Na esquerda constam, por esta ordem, a Fundaçom Meendinho, Universidades Galegas, AGLP, AGAL, ASPG-P, CIG e Achegas Populares, para lembrar as diferentes contribuiçons para poder erigir este monumento.

E na direita, a inscrição da seguinte frase:

A fala da Galiza, o português de Portugal, o português do Brasil e os portugueses dos distintos territórios lusófonos formam um único diassistema lingüístico conhecido entre nós popularmente como Galego e internacionalmente como Português.

Encerrou-se a homenagem com a interpretação do Hino Galego por gaiteiros da Gentalha do Pichel.

Participantes

Para além das pessoas já assinaladas, participaram no acto outras que se deslocaram desde diferentes cidades, vilas e lugares da Galiza e da própria comarca de Compostela. Entre elas José Luís Rodríguez, Isaac Alonso Estraviz, Bernardo Penabade, Luís Gonçales Blasco, Ana Pontón, Carme Fernández Pérez-Sanjulián, Manuela Ribeira Cascudo, Anxo Louzao, Rubén Cela, Artur Alonso Novelhe, José Manuel Barbosa, Concha Rousia, Ana Cabanas, Ramom Reimunde, outros familiares de Carvalho Calero, e umha ampla representação da comunicação social.

(*) Extrato da crónica publicada pelo PGL.

segunda-feira, 22 novembro 2010 02:00

Conversações sobre o galego e o português

Com a participação de José-Martinho Montero Santalha, presidente da AGLP

AGLP / PGL - O Centro de Estudos Brasileiros, em colaboração com a Academia Brasileira de Letras, organiza na próxima terça-feira, dia 23 de novembro, entre 17:00 e 20:00 horas, um seminário com o título "Conversações sobre o galego e o português: a criação literária nas duas línguas". O evento terá lugar no Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca (Palácio de Maldonado, Plaza de San Benito, 1).

Sob a coordenação de Ángel Marcos de Dios, catedrático de Filologia Moderna da USAL, nas conversas participarão José Luís Rodrigues, catedrático de Língua Portuguesa da Universidade de Santiago de Compostela e membro da Comissom Lingüística da AGAL; Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras; e José-Martinho Montero Santalha, presidente da Academia Galega de Língua Portuguesa.

José Luís Rodrigues apresentará a comunicação "Galego/português: encontros, desencontros, reencontros", Evanildo Bechara falará sobre "Os Estudos da Língua Portuguesa na ABL", e José-Martinho Montero Santalha intervirá com uma exposição subordinada ao título "O galego: o português da Galiza. Uma visão do galego como parte da lusofonia".

É possível assitir à atividade ao vivo pela internet através do canal de TV do CEB. A entrada é livre até completar a lotação.

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