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José-Martinho Montero Santalha arvora-se num lugar cimeiro do Reintegracionismo

As duas revistas tenhem como referente
José-Martinho Montero Santalha

Joám Manuel Araújo - A revista de Ciencias Sociais e Humanidades Agália, editada pola Associaçom Galega da Língua, publicou o número duplo 93/94, correspondente ao Primeiro Semestre de 2008. E o Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa debuta no mercado. As duas publicaçons tenhem em comum favorecer o diálogo entre a Galiza e os povos que conformam o intersistema lusófono, em especial Portugal e o Brasil; além de umha apresentaçom de atractivo e muito correcta. Também as duas revistas tenhem como referente José-Martinho Montero Santalha, quem se arvora num lugar cimeiro do Reintegracionismo após mais de 30 anos de dedicaçom e trabalho continuado: do Manifesto dos 13 de Roma a publicaçons específicas na imprensa, em revistas especializadas e em volumes, difundiu diferentes possibilidades de aplicaçom da ortografia histórica galega. Esta trajectória faz dele um dos especialistas mais representativos entre aqueles que mais se implicárom neste labor, com umha vultosa produçom científica e literária, que justificam essa privilegiada posiçom referencial e a importante representatividade.

Nova etapa da Agália

Capa da Revista Agália nº 93-94A principal novidade do número da Agália (ver conteúdos aqui) está no relevo na direcçom, agora assumida por José-Martinho Montero Santalha, professor da Universidade de Vigo. Finaliza assim umha etapa muito interessante e intensa, em que estivo dirigida por Carlos Quiroga, da Universidade de Santiago de Compostela.

Entre o que mais impacta no leitor neste novo volume está a ausência de materiais gráficos na capa e no interior, tam importantes nos últimos anos, pois nom se encontra apenas nengumha ilustraçom, embora haja reproduçom de documentos, algum facsimilarmente. Também nom há neste número a secçom de «Percurso», que incluia notícias da actualidade dos últimos meses.

A Agália mantém o estilo que a diferenciou e a colocou num lugar referencial na Galiza, desde 1985. Continuam os conselhos de Redacçom e Científico sem mudanças a respeito de números anteriores, e renova o interesse com contributos de atractivo em que convivem metodologias e propostas ortográficas muito diferentes, que espelham a diversidade que de regra é habitual na lusofonia.

A revista oferece 300 páginas muito bem desenhadas e apresentadas, e trabalhos do maior interesse. Merecem destaque dous dos contributos de Montero Santalha: a ediçom do epistolário de Álvarez Blázquez e Manuel Rodrigues Lapa, 37 cartas datadas entre Setembro de 1951 e Julho de 1956, e 3 mais entre 1965 e 1970, con informaçons valiosas para entender o evoluir da cultura galega nos meados do século passado; e mais a recuperaçom, na secçom de «Textos Literarios», de Joaquim Árias Miranda, editando 18 composiçons procedentes de um caderno autógrafo de poemas, e «reproduzindo exactamente o original de Arias Miranda, tamén as suas particularidades gráficas», que Santalha esclarece ter conhecido a través de amizades ferrolanas. Inclui dados da biografia deste produtor, e informa de como foi referenciado na historiografia literaria galega por estudiosos como Carré Aldao, Couceiro Freijomil, Carvalho Calero, Fernández del Riego ou Dolores Vilavedra, com o que contribui a recuperar umha figura muito secundarizada e desconhecida das Letras Galegas.

Também resulta de interesse a secçom de recensons, em que se estreia como colaboradora a prestigiosa investigadora e professora brasileira Gilda Santos, quem pertence ao Conselho Científico da Agália há anos, e neste contributo frisa o «trabalho minucioso e amoroso de uma filóloga [a professora Vanda Anastasio, da Universidade de Lisboa]... sobre outra filóloga [a Marquesa de Alorna]», que conclui serem «duas mulheres notabilíssimas» de dous períodos diferentes de Portugal: os tempos de hoje e o século XVIII.

Lançamento do Boletim da AGLP

Capa do Boletim da AGLP nº 1O Boletim da Academia Galega da Língua Portuguesa sai ao mercado com o número 1, que se divulgou já desde o 6 de Outubro, data do lançamento desta instituiçom, e em que predominam os textos dos académicos, que combinam referências à história e à actualidade. Esta publicaçom está dirigida por António Gil Hernández; tem José-Martinho Montero Santalha de subdirector; Ângelo Cristóvão, de secretário; Joám Evans Pim, editor; para além de um Conselho de Redacçom integrado por 9 pessoas da Galiza; e um Conselho Científico conformado por 16 pessoas, todas elas nomes prestigiados do ámbito académico, representantes das três universidades da Galiza, e outras de Portugal, Brasil (entre eles Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras; e João Malaca Casteleiro, da Academia das Ciências de Lisboa) e da Inglaterra.

A respeito do conteúdo, inclui um «Editorial» (pp. 7-8), que principia com os seguintes parágrafos: «Começamos, neste ano 2008, uma caminhada tão esperançada quanto difícil. Esperamos contribuir para a construção da Comunidade lusófona da Galiza: somos conscientes das dificuldades que acompanham as propostas, as actividades e as atuações para verificarmos essa esperança. Confiamos, como Castelão, no Povo galego e nos restantes Povos da Lusofonia para ultrapasarmos com sucesso as dificuldades». Indica como um dos objectivos principais a defesa da ortografia do Acordo Ortográfico aprovado neste ano por Portugal e com anterioridade por outros três países.

Na continuaçom inclui umha citaçom de A. Vilar Ponte. E segue-se umha estrutura iniciada por seis estudos: «O nome da Galiza», de José-Martinho Montero Santalha, presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 11-34), em que oferece argumentos para a escolha de Galiza em lugar de «Galicia», umha discrepância fulcral (entre outras muitas) desta nova instituiçom com a histórica Real Academia Galega, que neste semestre defendeu a pertinência de «Galicia». Outros estudos som: «Sintese do reintegracionismo contemporâneo», de Carlos Durão (pp. 35-56); «Um ponto de inflexão na reivindicação nacional: 1916, a Irmandade da Fala», de Ernesto Vázquez Souza; «Estado, Nação e Tríade Lingüística: Teorização leve sobre factos graves», de António Gil Hernández (pp. 89-104); «Categorias gramaticais e dicionários: para uma didática dos adverbios», de Maria do Carmo Henríquez Salido (pp. 105-116); «O hexâmetro dactílico greco-latino e a sua adaptação à métrica galego-portuguesa», de Ângelo Brea Hernández (pp. 117-132); e «Galiza, terra e mãe. Mulheres e exílio na obra de Luís Seoane» de Barbara Kristensen (pp. 133-150).

Na secçom «Notas» inclui «Sobre o conceito de Notáveis na obra sociolinguística de António Gil», de Xavier Vilhar Trilho (pp. 153-164); «Um (assombrado) Complexo de Bartleby: Isto [não] é um livro e Eu [não] sou [...]» de Álvaro J. Vidal Bouzon (pp. 165-178); «Revendo as noções de ‘Lusofonia’. Uma aproximação conceitual», de J. Evans e B. Kristensen (pp. 179-186); e «Por um Corpus Musicum em liberdade», de Rudesindo Soutelo (pp. 187-194).

Na secção «Instituição» incluem os Estatutos da Associação Cultural Pró Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 195-200); a «Crónica da Conferência de Lisboa, intervenções, instituições e documentos» (pp. 201-212), em que Concha Rousia relata (pp. 201-206) a experiência da presença galega na sessom da Assembleia da República de Lisboa, aos 7 de Abril de 2008, em que aconteceu a audiência a diversas pessoas e instituiçons sobre o Acordo Ortográfico, incluindo o texto das intervençons de Alexandre Banhos, presidente da Associaçom Galega da Língua (pp. 206-209) e de Ângelo Cristóvão, presidente da Associação Pro-Academia Galega da Língua Portuguesa (pp. 209-211), bem como reproduçom do convite oficial (p. 212); o texto integral, com as XXI bases, do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (pp. 213-234); o Hino da Galiza, com introdução, partitura e letra (pp. 235-240); e a composiçom Deu-la-deu, suite para guitarra de Rudesindo Soutelo, estreada pola guitarrista Isabel Rei com ensejo da inauguraçom da AGLP.

A revista finaliza com 3 recensons: de Ernesto Vázquez Souza (sobre As Sete Fontes, de Concha Rousia), de António Gil Hernández (de O País dos Nevoeiros, de Ângelo Brea) e de Álvaro J. Vidal Bouzon (de Temas de lingüística política, de A. Gil Hernández).

Conclusom

Estamos, portanto, perante duas publicaçons que oferecem umha perspectiva muito interessante do relacionamento da Galiza com o mundo, através do diálogo com o intersistema dos povos que conformam a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). É esta umha possibilidade aberta, pouco aproveitada ainda na Galiza, que se disponibiliza polo facto de partilhar idioma comum. Ambas as revistas situam-se numa vanguarda referencial: a Agália com umha importante trajectória já de 24 anos, em cujas páginas tenhem colaborado nomes de relevo da Galiza e dos diferentes países lusófonos, e nom só; e o Boletim da AGLP iniciando o seu andamento.

Esse relacionamento com a comunidade lusófona tem oferecido frutos importantes já para a Galiza, e abre perspectivas e posibilidades muito aliciantes. Quando prosperarem, nom se poderá negar o papel pioneiro e os trilhos abertos por publicaçons como estas, entre as principais que tenhem trabalhado por esse objectivo de abertura ao mundo e de integraçom num âmbito que, por história e tradiçom, nom pode ser alheio para a comunidade galega.

Compostela, Dezembro de 2008.

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