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José Paz Rodrigues

José Paz Rodrigues lembra a figura de Ernesto Guerra da Cal

O didata e pedagogo tagoreano José Paz Rodrigues, académico da AGLP, está a divulgar nestes dias a figura de Ernesto Guerra da Cal  através de uma peça de opinião publicada em vários meios de comunicação da Galiza. Nessa peça, que reproduzimos a seguir, lembra a homenagem que diversos coletivos e pessoas  renderam ao saudoso professor no passado dia 17 de maio em Santiago de Compostela.

José Paz Rodrigues
(Didata e pedagogo tagoreano)

No passado dia 17 de maio em Compostela, perante a estátua de Ricardo Carvalho Calero, galegos e galegas que temos memória, e várias entidades académicas, culturais e pedagógicas, como a Fundaçom Meendinho, a AGAL, a ASPGP, que me honro em presidir, e a AGLP (Academia Galega de Língua Portuguesa), entre outras, lembrámos e homenageámos um dos mais grandes e nobres galegos de toda a história, como foi Ernesto Guerra da Cal. De que neste ano se comemora o centenário do seu nascimento.

Grande escritor, professor, poeta e filólogo, tinha nascido em Ferrol a 19 de dezembro de 1911 e faleceu em Lisboa em 28 de julho de 1994. Igual que a Carvalho, tinha, antes que a outros, que dedicar-se-lhe o Dia das Letras Galegas. Está considerado, dentro do mundo das nossas letras, como o vulto galego mais conhecido internacionalmente, pois grande parte da sua vida, depois da guerra, esteve nos Estados Unidos, onde foi professor da Universidade de Nova Iorque; em Portugal, onde está considerado como o maior investigador e especialista do mundo da obra literária de Eça de Queirós; e no Reino Unido nos últimos anos da sua vida. Provavelmente, por estar tanto tempo ausente da sua Galiza e exilado da sua Terra, que muito amava, é pouco conhecido entre os galegos e são poucos os que tenham saboreado a sua excelente poesia e os seus escritos. O que ainda estamos a tempo de fazer.

Não são muitos os que sabem que os Seis poemas galegos de Lorca, que era seu grande amigo, foram escritos com a sua ajuda e, por isto, o grande poeta granadino publicou versos no nosso formoso idioma. Eu convido os meus leitores a ler obras poéticas de Guerra da Cal tão lindas como Lua de além-mar (1959), Poemas (1961), Rio de sonho e tempo (1962), Motivos de eu (1966), Futuro imemorial (1985), Deus, tempo, morte, amor e outras bagatelas (1987), Espelho cego (1990), Caracol ao Pôr-do-Sol (2001), o seu grande e profundo estudo, resultado da sua tese, Língua e estilo de Eça de Queiroz (1954), e a sua magnífica versão dos Cantares galegos de Rosália de Castro, editada por Guimarães Editores de Lisboa, sob o título de Antologia poética. Cancioneiro Rosaliano (1985).

Muito recentemente foi publicada pola AGLP uma Breve Antologia Poética de Guerra da Cal, coordenada polo meu grande amigo Carlos Durão, que mora em Londres, e teve a sorte de conhecer pessoalmente o nosso escritor e estar com ele na sua casa muitas vezes. Antes, há poucos anos, o jornalista ourensano Joel R. Gomes, que por um tempo trabalhou em La Región, realizou a sua tese de doutoramento sobre Guerra da Cal, sendo sem dúvida o estudo mais completo feito polo de agora sobre uma figura galega tão importante. Resultado da mesma foi em 2003 a publicação em edições do Castro do seu livro Fazer-se um nome: Eça de Queirós-Guerra da Cal. Através da mesma pode comprovar-se a imensidade da obra escrita por Guerra e dos seus múltiplos artigos de tipo científico, literário e filológico, em infinidade de publicações de todo o mundo. Foi ele ademais o que colocou a literatura galega ao nível da portuguesa e da brasileira, ao ser o encarregado de coordenar a parte relativa à Galiza no Dicionário de Literatura Portuguesa, Brasileira e Galega, magna obra de quatro volumes dirigida por Jacinto de Prado Coelho em 1956, que por sorte eu tenho na minha biblioteca de cultura lusófona.

Antes de terminar, não quero deixar de resenhar vários dados do nosso grande escritor. Que passou a sua infância, até os 11 anos, na localidade de Quiroga, ao lado do rio Sil. Que depois em Madrid se formou na ILE de Giner e Cossío, e foi amigo de Lorca, Buñuel, Cernuda e Juan Ramón Jiménez. Que ao começar a guerra, combateu do lado republicano formando parte das Milícias Galegas. Que estava em Nova Iorque ao fim da guerra, onde fora enviado polo governo republicano, e onde chegou a ajudar Castelão e outros exilados. Que nos EUA desenvolveu uma frutífera carreira académica, dirigindo a cátedra de Línguas e Literaturas Românicas na Universidade e sendo depois diretor do Departamento de castelhano e português do Washington Square College.

O dever dos galegos bons e generosos é promover o conhecimento da figura de Guerra da Cal e facilitar que os nossos jovens leiam a sua obra imensa, tirando do esquecimento a sua grande figura com projeção internacional, como nenhuma outra. Eu agradeço-lhe muito que com a sua obra, poética e erudita, com o seu prestígio e impulso ao reintegracionismo, deixou um incalculável legado à nossa Galiza. Tão importante, como, infelizmente, pouco conhecido entre a maioria de galegos e galegas.