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José-Martinho Montero Santalha e Isaac Alonso Estraviz

Presidente e vice-presidente da Academia
em destaque no 30º aniversário da AGAL

Joám Manuel Araújo - O sábado 5 de novembro, Isaac Alonso Estraviz (Vila Seca, 1935) e Martinho Montero Santalha (Cerdido, 1947) recebem uma homenagem em Compostela. Reconhece-se o seu contributo de décadas de estudo do idioma da Galiza, e a defesa da sua confluência com o português. As suas atuações, já desde o franquismo, contribuem para uma maior internacionalidade da Língua Galega. É por isso que este humilde recanto bibliótafo quer aderir a essa homenagem com a lembrança de dois contributos destes veteranos mestres.

O estudo do léxico e o uso da ortografia comum –a histórica para o galego, acorde com a sua tradição– encontram-se entre os elementos centrais porque eles tentaram evidenciar a efetividade e a necessidade desse caminho, que favorece uma mais alargada comunicação do povo galego, ao tempo que lhe abre múltiplas possibilidades e perspectivas de progresso e de enriquecimento.

Estraviz e Montero situam-se entre os pioneiros que, desde o século passado, enfatizam o tesouro que representa para a cidadania galega essa língua ecumênica; e mantêm-se na vanguarda das pessoas que assumem na Galiza o Acordo Ortográfico que se está a implementar na comunidade internacional. Os dois se implicam muito ativamente em organizações como a Associaçom Galega da Língua ou a Academia Galega da Língua Portuguesa.

Na trajetória destes dois intelectuais destacam produções nos campos da docência e da investigação, com publicações de teor científico e literário, bem como a sua participação ativa em projetos e empresas de diferentes grupos. Procuraram coerência, insistência e persistência, que justificam este público agradecimento e louvor em Compostela.

Entre os principais fitos que merecem destaque, há de citar-se, na década de 70, o Manifesto dos 13 de Roma, de que Martinho Montero Santalha foi principal valedor, que evidenciava caminhos positivos para a recuperação do galego, entre eles o da necessária mudança do rumo ortográfico; e a participação de Isaac Alonso Estraviz na reunião do Acordo Ortográfico do Rio de Janeiro, em 1986, pois nunca antes a Língua Galega tivera um reconhecimento assim.

I. Estudos Filológicos Galegoportugueses, de Isaac Alonso Estraviz

Em Maio de 1986, Isaac Alonso Estraviz participou como representante da Galiza nas reuniões, celebradas no Rio de Janeiro, com o intuito de aprovar um Acordo Ortográfico que ultrapassasse diferenças vigorantes na língua portuguesa comum. Para além das sete nações em que, na altura, estava reconhecida como oficial (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe), a comunidade galega conseguiu ser convidada, mesmo intervir ativamente, graças às gestões de um pequeno grupo de pessoas, que promoveram e constituíram uma Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro. Essa Comissão presidia-a Ernesto Guerra da Cal, intelectual de prestígio e autoridade em Portugal e no Brasil1 (e não só), que lhe permitiram influenciar entre as personalidades portuguesas e brasileiras que lideravam essa reunião do Rio de Janeiro para que a Galiza fosse aceite.

Em 1987 Estraviz publicou um livro2, o primeiro de ensaios de um autor galego redigido nessa norma comum, que visava uma maior internacionalização da língua própria da comunidade galega. Nele reproduz (p. 80+4) a carta enviada por Ernesto da Cal ao acadêmico brasileiro Antônio Houaiss, quem presidia aquela reunião multinacional e transcontinental, para indigitá-lo como o seu substituto3, e publica informações e fotografias de aquele encontro do Rio.

Estraviz redige uma introdução, e diferencia cinco partes: “A Ortografia Galegoportuguesa”, “O Léxico Galegoportuguês”, “O Compromisso da Lingua”, “Autores e Críticas”, e “Anedotario Linguístico”. Finaliza o volume com um “Epílogo. Sobre dicionários galegos e temas enleados. (Conversa –grafada– com Isaac Alonso Estraviz, diretor e autor do Dicionário da Língua Galega comum)”, de António Gil Hernández.

Estraviz esclarece e defende aí a sua posição. Combate argumentações contrárias de outros especialistas da Galiza. É um livro importante na trajetória do Estraviz lexicógrafo, campo em que a sua produção porventura ofereceu, e ainda oferece, os melhores frutos. Na leitura deste volume indicam-se os alicerces do seu trabalho em prol da normativização e da normalização da língua autóctone galega. Como ele próprio esclarece (pp. 14 e 15): “Fala-se aqui de ortografia, de léxico, dos compromissos dos galegos ante a sua língua […] Este livro vai na ortografia comum deste grande complexo cultural no que está imersa e que foi aceite por todos os representantes dos diferentes países reunidos em Rio de Janeiro do 6 ao 12 de maio de 1986, dentro de uma ímpar democracia e fraternidade. Uma ortografia apropriada ao mundo da informática e das relações internacionais, pois a nossa língua não tem fronteiras4”.

Informações fornecidas neste livro ajudam a entender o processo seguido nas últimas décadas no que diz respeito à política lingüística galega. É assim um volume que contribui para a memória histórica e que referencia dados, mesmo notícias da comunicação social, que não sempre é fácil conhecer, por não existir muita disponibilidade para se aproximar ao seu conteúdo. O volume tem igualmente o atrativo de estar redigido num estilo de fácil leitura, mesmo para pessoas não especialistas, mas interessadas na língua galega e na sua história num tempo tão decisivo como o período 1978-1986, em que foram redigidos os trabalhos incluídos neste valioso volume.

II. Carvalho Calero e a sua obra, de Martinho Montero Santalha

Editado 3 anos após a morte de Ricardo Carvalho Calero, por este livro5 Martinho Montero Santalha ganhou em 1992 a segunda edição do “Prémio de Investigação Carvalho Calero”, instituído pela Câmara Municipal do Ferrol. Como adverte no “Limiar” (p.7) teve de ajustar-se ao limite máximo de páginas imposto pelas bases do concurso. Este volume foi desde os seus inícios guia para o estudo de Carvalho Calero. Foi também visto como uma necessidade, pela acertada síntese que realiza a respeito da intensa biografia e produção do vulto estudado.

Montero Santalha diferencia quatro partes: dedica a primeira à vida, em nove etapas, dos anos da infância e primeira adolescência em Ferrol, aos da jubilação em Compostela; a segunda à obra, com epígrafes para a Poesia, Teatro, Narrativa, Ensaio, Crítica literária, e Lingüística e Filologia; a tercera, que intituta “Esboço de caracterizaçom”, ocupa-se do homem e do escritor; e a quarta é uma “Bibliografia anotada”, com duas epígrafes, uma da produção de Carvalho, e outra sobre ele. No final inclui-se um “Apêndice”, de 12 páginas de iconografia, igualmente de relevo.

Rigor e generosidade salientam neste estudo. Montero Santalha cita as fontes e oferece informações com minúcia e pormenor, que se agradecem. Exemplo disto é o “Preámbulo” inicial: nele esclarece as fontes em que se alicerçou, como livros de conversas com Carvalho, fragmentos autobiográficos, depoimentos de pessoas que o conheceram, e contributos de outros repositórios, estudos e pesquisas já publicados; mas também de peças literárias do próprio Carvalho.

Capítulo que merece especial destaque é o dedicado para a “Bibliografia anotada”. A “Bibliografia de Carvalho Calero” ocupa as páginas 211-283: inclui contributos desde 1928, em que publicou o soneto “Deus” na revista ourensana Nós, até ao ano 1992 em que se editou, póstumo, o volume Umha voz na Galiza, uma colectânea de artigos de imprensa. Por colocar como exemplos estes dois verbetes, além de indicar as informações bibliográficas pertinentes, para o soneto dedica 14 linhas de informação. E para o volume póstumo 5 páginas, enumerando os 101 breves trabalhos que inclui e comentando alguns especialmente significativos (Vale a pena citar aqui, também como exemplificação, o que destaca de “Ortografia galega”, texto número 11 desse livro, um artigo publicado por Carvalho Calero originariamente no jornal La Voz de Galicia em 1975, e do qual afirma Montero Santalha (p. 280): “Este artigo sinala o momento em que Carvalho inicia abertamente o labor em prol da unificação ortográfica galego-portuguesa”, citando na continuação parágrafos do artigo de Carvalho julgados especialmente significativos, como estes “[…] históricamente non habería outra ortografia que a inspirada no portugués. […] Inserto o noso idioma no complexo iberorrománico ocidental […] restabelecendo a continuidade que pode ter sido alterada polo intre dialectal em que a língua viviu durante séculos”).

A bibliografia sobre Carvalho Calero está nas páginas 285-304, igualmente com contributos entre 1928 e 1992, também comentados. Assim, o leitor finaliza com uma imagem muito ampla da personalidade e da produção de Ricardo Carvalho Calero.

III. CONCLUSÃO

Estes dois livros de Isaac Alonso Estraviz e de Martinho Montero Santalha são hoje referentes. Apesar do tempo que levam no mercado a sua leitura conserva atualidade e resultam de valor para entender melhor o presente. São dois dos seus mais valiosos contributos, que continuam a ser estudados e citados.

Representam assim mesmo dois dos muitos pontos de encontro entre eles: porque Montero Santalha também pertenceu àquela pioneira Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo Ortográfico Luso-Brasileirov e travou estreita amizade com Ernesto da Cal; e Isaac Estraviz tem por sua vez estudado Carvalho Calero, o primeiro professor de Línguística e Literatura Galega na Universidade galega, produtor literário de relevo, impulsor do Movimento Reintegracionista e de uma verdadeira escola que tantos frutos tem já dado, e continua a dar, e a que Estraviz e Montero Santalha aderiram; e nela continuam, entre os seus principais representantes.

Notas:

1 Esse prestígio e autoridade entesourara-os Ernesto da Cal como resultado de um trabalho continuado em favor da Línuga, a Literatura, o Ensino e a Cultura desses países, desde a década de 40. Entre os reconhecimentos conseguidos, tinha recebido condecorações dos Governos (v. gr. as ordens de Santiago da Espada de Portugal, e a do Cruzeiro do Sul do Brasil) e de instituições acadêmicas (v. gr. Doutor Honoris Causa pela Universidade de Bahia, ou membro da Academia das Ciências de Lisboa), para além de ter publicado livros de sucesso, e outros muitos méritos nos dois países (bem como em Moçambique e em Angola).

2 Estraviz, Isaac Alonso, (1987), Estudos Filologicos Galegoportugueses, Madrid Alhena, 334 páginas.

3 Ernesto da Cal era a pessoa convidada e esperada como representante galego, mas não se pudera deslocar, e delegou a sua representatividade em Estraviz. Também acudiram José Luís Fontenla e Adela Figueroa, igualmente membros da Comissão galega. Os três participaram ativamente nas reuniões do Rio de Janeiro.

5Montero Santalha, José Martinho, (1993), Carvalho Calero e a sua obra, Santiago de Compostela, Laiovento, 312+12 páginas.

4 Aquela proposta ortográfica, como é bem conhecido, não prosperou, mas sim outra posterior, de 1990, que é a que começa a vigorar nos últimos anos, e também assumida desde os inícios por Estraviz. É de justiça salientar como neste volume de 1987 Estraviz respeita disciplinadamente aquele Acordo de 1986, por mais que tivesse matizações ao mesmo, e assim o assinalava (p. 15): “como assistente ao Acordo, o ortografia que utilizo está mais em consonancia com o espirito do que com a letra do mesmo, como se pode comprovar no trabalho aqui incluido e intitulado ‘Comentários às Bases da ortografia simplificada’”, trabalho este que figura nas pp. 69-80[+4].

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