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Delegação da AGLP no evento: Concha Rousia,
Ernesto Vasques Souza, Maria Dovigo e Ângelo Cristóvão

Organizado pelo MIL (Movimento Internacional Lusófono) decorreu na passada sexta-feira, na Sociedade de Geografia de Lisboa,  a entrega do prémio Personalidade Lusófona 2011. O homenageado foi neste ano o professor Adriano Moreira, pelo seu contributo dado durante a sua dilatada carreira à defesa do espaço lusófono. O ato contou com a presença dos académicos Ângelo Cristóvão, Concha Roussia e Ernesto Vásquez Souza.

 A entrega do prémio foi precedida pelo X Encontro Público da PASC (Plataforma Ativa da Sociedade Civil), que tinha como tema "A importância da Lusofonia". O encontro começou com as intervenções da presidente da PASC, Maria Perpétua Rocha, e pelos professores António Gentil Martins, Mendo Henriques e Fernando Nobre. Foram seguidos dos depoimentos de representantes de diferentes estados e comunidades lusófonas: Timor, Brasil, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Macau, Malaca e a Galiza.

Em nome da Galiza interveio a vogal da Pró Maria Dovigo, cujo discurso reproduzimos a seguir acompanhado da gravação em vídeo, disponibilizada pelo MIL na sua página:

A IMPORTÂNCIA DA LUSOFONIA (PASC)
Sociedade de Geografia de Lisboa (24 de fevereiro de 2012)

“As duas geografias”

Maria Seoane Dovigo

“Que fermosa geografia,
Só de nós sabida”.

José Maria Álvarez Blázquez

Se as palavras não só se compreendem pelo seu significado mas pela rede de associações que por várias vias tecem à sua volta, nenhuma mais forte como a ligação entre Lusofonia e liberdade para aqueles galegos que geração após geração mantemos a chama viva da defesa da unidade da língua galaico-portuguesa. “Portugal é a Galiza livre e criadora”, proclamava, mas do que dizia, o ímpar ser humano que foi Daniel Castelão.

Poucos povos como o galego sentem a separação entre a geografia física e a imaginária, o país vivido e o país desejado ou, evocando outros mundos míticos que dão horizonte ao nosso percurso na história, a Galiza demandada. O corpo da Galiza, o belo corpo de natureza poderosa e até perturbadora que raramente deixa indiferente não só aos nascidos no país mas aos visitantes, é o país dos estrangeiros na sua própria pátria, a mais dolorosa forma de exílio.

Cedo aprendemos os galegos a procurar pelo mundo o que nos é negado no lar materno: a nossa riqueza material mas também o nosso sonho secular e coletivo duma humanidade sem amos nem servos, dum mundo de irmãos. Podemos invocar mil fontes para defender a supremacia da origem deste sonho universalista.

Mas eu não procuro com estas breves palavras legitimar a prevalência de qualquer nação, comunidade ou religião. Não é essa a minha vocação. Não é isso o que, como filha da Galiza, procuro na palavra Lusofonia. Penso que a busca permanente dessa ilha à que já demos tantos nomes está no mais fundo da nossa condição humana.

Se alguma lição consigo tirar deste convulso tempo em que estamos a viver é o terror que o homem tem à falta de liberdade, que não por acaso começa com a privação dos bens materiais. E liberdade é o que como galega procuro na comunidade lusófona. Liberdade para que a minha pátria não morra, para que se regenere através duma língua, a portuguesa, da que já foi raíz mas da que anos de império alheio privaram de cultura, de palavras para dizer os sonhos dos que em todo o mundo, também em Portugal, fomos conhecidos pela força do nosso trabalho, pelo nosso empenho em libertar a família e a terra das privações materiais e também de soberania. Bem conhecemos essa dupla cara da miséria. Os caminhos já foram abertos, as fronteiras físicas desimpedidas. Fica agora a tarefa mais difícil, mas também a mais entusiasmante: a de converter esta geografia física que o mar uniu em geografia liberada e fraterna.

A terra estará sempre do nosso lado, como mãe amorosa cujos braços chegam a toda a parte, como mãe que mesmo no desespero encontra sustento para os seus filhos. Libertemos a terra da escravatura da ganância. Não foi para trazer especiarias a Europa que os portugueses partiram na aventura das descobertas nem é o saudosismo pelos séculos passados que trará a grandeza a Portugal. Também não foi para matar muçulmanos que os galegos inventaram o sepulcro do apóstolo peregrino. Será, por ventura, a consciência cívica, a vontade expressa de criar a cidade nova da ilha paradisíaca que persiste na nossa memória neste tempo em que todas as geografias físicas são conhecidas e todos os pesadelos realizáveis.

Ela, a ilha, está lá, à espera de todos nós, os que cá fomos convocados pela palavra Lusofonia e que por avatares da história fomos ligados pelos caminhos do mar. Eles nunca foram fáceis, nem no tempo das navegações míticas, nem nas dos santos, nem nas dos peregrinos, nem nas dos navegadores do Infante, nem nas dos escravos africanos ou dos seus substitutos nos barcos negreiros, os emigrantes galegos a caminho da América ou os que desde diferentes nações da Europa fugiam da fome e da opressão.

As viagens sempre pediram coragem, sacrifício, curiosidade, conhecimento, amor aos longes, imaginação. Demos-lhe agora a esta herança civismo no seu sentido mais pleno, desde o etimológico àquele que os séculos lhe conferiram. Unidos estamos aqui não pelas nossas etnias nem pelas nacionalidades, por mais que não renunciemos à riqueza que elas nos deixaram, mas pela esperança de nos ligarmos em liberdade, porque queremos deixar um legado de abundância e paz. Todos os contributos são imprescindíveis na construção da cidade nova, desde a satisfação das nossas necessidades materiais ao nosso inquieto desejo de criar o que só a nossa imaginação consegue ver. Enchamos de nomes o nome da Lusofonia. Talvez nesse momento, que tanto gostaram de cantar os nossos poetas, acabe porfim o exílio dos galegos. Como nos diz Rosalia de Castro: “Ânimo, companheiros. Toda a terra é dos homens”.

Sala da Sociedade Geográfica de Lisboa onde decorreu o evento

Professor Adriano Moreira,
prémio Personalidade Lusófona 2011

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