Categoria: Valentim Paz-Andrade Acessos: 4003

 

José-Martinho Montero Santalha,
presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa

Este artigo, publicado originariamente com o mesmo título na revista Agália (núm. 51: outono de 1997, pp. 287-296), reproduz o texto da minha intervenção na mesa-redonda «Valentim Paz-Andrade, escritor», celebrada na sala de conferências do «Centro Cultural Caixavigo», de Vigo, em 28 de maio de 1997, dentro dos actos da «Homenagem a D. Valentim Paz-Andrade» organizados pela «Associaçom Galega da Língua» (AGAL) em Pontevedra e em Vigo no mês de maio de 1997 por motivo de se cumprir o décimo aniversário da sua morte (acaecida em Vigo a 19 de maio de 1987). Republica-se aqui com leves modificações e alguma atualização de pequeno relevo.

Sumário

Advertência preliminar

Plano deste artigo

Preâmbulo: uma confissão pessoal

1) Trabalhos teóricos sobre a língua:

1959: Galicia como tarea

1968: um futuro galaico-português

1970: La marginación de Galicia

2) Traços reintegracionistas no seu uso da língua

Conclusão

Bibliografia citada

a) Escritos de Valentim Paz-Andrade (em ordem cronológica)

b) Outras obras citadas

Nestas páginas pretendo apresentar, de maneira algo esquemática, o tratamento que nos seus escritos Valentim Paz-Andrade deu à língua da Galiza em quanto parte da área linguística portuguesa.

Advertência preliminar

Todos sabemos que à língua falada na Galiza se vem dando comummente entre nós a denominação de «língua galega», ou «idioma galego» (e alguns até propugnam agora que é uma língua independente da portuguesa, extrapolando ao campo linguístico factos de índole política).

Como veremos, ponto fundamental da concepção que Paz-Andrade tinha do nosso idioma era a unidade linguística galego-portuguesa, a plena integração da Galiza na área lusófona; e por isso me permito falar aqui de «língua portuguesa da Galiza», procurando evitar a denominação de «língua galega», por ser acientífica, ou mesmo anti-científica, e induzir facilmente a engano.

Plano deste artigo

Intentarei, em primeiro lugar, expor as ideias de Paz-Andrade sobre o carácter lusófono da nossa língua, isto é, os aspectos teóricos, fazendo-o falar sobretudo a ele, ou seja, aduzindo os seus textos, que são suficientemente expressivos por si sós.

E concluirei fazendo uma breve referência aos aspectos práticos, ou seja, à prática linguística que se pode detectar nos seus escritos.

Preâmbulo: uma confissão pessoal

Quero declarar, antes de mais, a admiração e simpatia que sempre me produziu a figura de Valentim Paz-Andrade; uma simpatia que foi in crescendo: desde o meu primeiro contacto com os seus escritos até o conhecimento da sua correspondência recentemente publicada 1 –que impressiona e mesmo emociona por vezes–, e passando pelo trato pessoal com ele e com a sua família.

A este respeito, desejaria começar fazendo uma confissão de carácter pessoal, sobre o que Paz-Andrade significou –sem ele sabê-lo, evidentemente– na minha conformação de ideias e em geral na minha evolução vital até hoje.

Em 1968 achava-me realizando os meus estudos teológicos em Roma. Ali, longe da Terra, fora onde, em contacto –e muitas vezes em contraste– com gentes forâneas, e em diálogo e convivência com outros companheiros galegos, descobrira havia algum tempo a realidade cultural da Galiza, e portanto a minha própria realidade autêntica e íntima como galego, dantes obscurecida pela colonização mental espanhola (então ainda mais que hoje dominante na educação e na cultura da Galiza). Um grupo de seminaristas e sacerdotes residentes em Roma constituíramos um movimento a que demos o nome de «Os Irmandinhos», empenhado especialmente em despertar na Igreja da Galiza a consciência da língua e o compromisso com a cultura galega 2 .

Quando o professor Alonso Montero, então residente em Lugo, pensou em organizar um livro colectivo sobre o futuro da língua e da cultura da Galiza naquela altura, dirigiu-se a nós solicitando-nos uma colaboração que tratasse o aspecto da língua na Igreja, centro da nossa preocupação como grupo. Com efeito, enviamos o nosso trabalho a Alonso Montero, e algum tempo depois recebemos dele os exemplares do livro publicado, intitulado O porvir da lingua galega, que incluía também a nossa colaboração 3 . E aqui entra em cena o papel de Valentim Paz-Andrade ao meu respeito. Entre os artigos incluídos no livro aparecia um de Paz-Andrade intitulado «A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa» (artigo de que voltarei a falar mais adiante), em que enunciava com absoluta claridade a unidade lusófona da Galiza.

Li-o como um descobrimento gozoso: ali estava formulada de modo explícito e natural a sensação que se vinha conformando em mim ainda num nível inconsciente e confuso, iniciada casualmente já em leituras da época da adolescência e despertada agora em Roma pela sintonia de duas experiências: o compromisso com a língua própria, por uma parte, e, por outra, o trato com os companheiros brasileiros da Universidade Gregoriana, que me deparava contínuas surpresas linguísticas e me dava a impressão de achar-me na minha própria casa.

A partir do artigo de Paz-Andrade, tudo começou a ser claro para mim. E esse foi o estímulo decisivo que me impulsou, desde aquele mesmo momento, ao estudo pessoal da nossa língua nas suas duas dimensões diacrónica e sincrónica.

De modo que, neste capítulo tão importante da minha vida como é a defensa da unidade lusófona da Galiza, não posso menos de sentir-me, em boa medida pelo menos, filho de Paz-Andrade e de lembrar a sua figura com especial emoção.

1) Trabalhos teóricos sobre a língua

Citarei alguns textos de Paz-Andrade, centrando-me em três trabalhos seus: o livro Galicia como tarea (1959), o artigo de 1968 antes aludido, e o livro La marginación de Galicia (1970).

1959: Galicia como tarea

Em 1959 Paz-Andrade publica um livro de título sugestivo e incitante: Galicia como tarea 4 . É uma espécie de manual teórico-prático de galeguismo, que tem como base as conferências proferidas em agosto de 1957 em Buenos Aires por convite do Centro Galego.

O livro estrutura-se em três partes (ademais de uma extensa apresentação: pp. 13-21). Na primeira («Primera Parte: Supuestos estructurales»: pp. 23-71) detém-se sobretudo nas características demográficas da Galiza (dispersão populacional, emigração); na segunda («Segunda Parte: El horizonte económico»: pp. 73-124) analisa algumas das possibilidades económicas que os recursos naturais galegos oferecem; e, finalmente, na terceira («Tercera Parte: Reorientación del esfuerzo cultural»: pp. 125-164) ocupa-se dos problemas culturais, cujo núcleo é o assunto da língua. Nesta terceira parte, pois, acham-se as considerações que agora nos interessam.

Consta essa parte terceira de 5 capítulos (capítulos 11-15), sobre a cultura em geral e especialmente sobre a língua. No capítulo 12, parágrafo «3. Área de expansión exterior» apresenta-se-nos a dimensão geográfica da nossa língua pelo ancho mundo, ressaltando a importância do Brasil:

“La jerarquía de un idioma no depende solamente de lo que fue a través de las edades. También proviene de su utilidad presente. Su nobleza, por edificante que fuese, no representaría gran cosa si se redujese al plano histórico. [...].

Tampoco depende aquella jerarquía de la mayor identidad formal entre la rama originaria y la más evolucionada y extensa. Puesto que las diferencias de fonación y grafía no constituyen obstáculo grave para el recíproco entendimiento, la eficiencia del sistema en su conjunto debe estimarse plena. Y en su doble alcance funcional: como medio de comunicación y como instrumento de creación cultural.

Bajo el primer aspecto interesa considerarlo ahora. El concepto social del habla gallega ha sufrido tales desvirtuaciones que a no pocos hombres cultos les inspira una estimación equivalente a la que merece un testimonio arqueológico o una supervivencia folklórica. Este prejuicio envuelve una insostenible subestimación de la capacidad del idioma para servir las necesidades de la época. E, incluso, de su grado de incorporación a las mismas necesidades, dada la identidad estructural que conservan el portugués y el gallego, recíprocamente inteligibles. Se trata de una lengua con la cual pueden entenderse hoy millones y millones de personas, aunque lo hablen con distinto acento o escriban de forma diferente cierto número de vocablos. En el cómputo se comprenden las poblaciones de Galicia, Portugal –con sus colonias–, y Brasil.

El mapa del idioma de Camões y Rosalía se extiende a cuatro continentes. Es la tercera en importancia entre las lenguas neo-latinas. Después del inglés y el castellano, es la hablada por mayor número de personas en el hemisferio austral.

Pero los datos reveladores de la expansión que ha alcanzado palidecen ante los que permiten deducir el desarrollo futuro del mismo fenómeno. Basta tener presente el índice de acelerado crecimiento demográfico y económico del Brasil, y valorar su porvenir como potencia mundial, para comprender que un auge paralelo experimentará el censo de los que hablan el idioma galaico-portugués en América. Y no sólo el censo directo. Imperativos de orden económico y cultural le abrirán cada día mayores cauces para el intercambio, en los países anglo-sajones. Tiene, por tanto, brillantemente asegurado su destino entre los grandes idiomas atlánticos” 5 .

A expressão “idioma de Camões e Rosalia”, que é uma definição histórico-literária da língua do ponto de vista galego, pode comparar-se com a usada antes por Pondal, personalizando a dimensão galega no mítico Breogão.

No capítulo 13 de Galicia como tarea, intitulado «Condición no vernacular del gallego», as palavras de Paz-Andrade assumem um certo tom de crítica à política cultural galega:

“Aún se pueden encontrar gallegos que rebajen irresponsablemente a dialecto la jerarquía de su idioma nativo. Para los irresponsables no escribimos ahora. Pero entre los responsables, tal vez ninguno rehusará calificarlo como lengua vernácula . Basta esta consideración para revelar hasta qué punto se ha subestimado la razón fundamental que justifica la supervivencia y valorización del idioma gallego.

Para mí, esa razón no es otra que la de ser un instrumento eficaz que permite comunicarse y entenderse, actualmente, con más de setenta millones de hombres. Sólo cuatro idiomas más, entre tantos como se hablan en el mundo, disfrutan de una expansión semejante. Frente a esta realidad, que el mismo idioma se module con distinto acento y hasta que un cierto número de palabras y giros se pronuncien o construyan de manera diferente en Galicia, Portugal y Brasil, tiene una importancia secundaria. Nunca podrá explicar satisfactoriamente la desconexión práctica entre la rama galaica y la lusa, del idioma común. Y, mucho menos, la orientación del problema, cerrando sus perspectivas dentro del marco regional y el concepto vernacular del idioma”.

“Toda posición que suponga desconocimiento de la unidad estructural, debe en este caso reputarse falsa. Autoridad tan indiscutida como Menéndez Pelayo sostiene: ‘No sólo son idénticas en su esencia las lenguas gallega y portuguesa, sino que las formas arcaicas y populares... han de calificarse de verdadeiros galleguismos ’.

Por tanto, no puede parecer razonable cualquier tendencia que reduzca el problema a la rehabilitación literaria de una lengua retardada en su forma escrita, haciendo caso omiso, o poco menos, de la evolución que experimentó durante siglos de uso múltiple y pleno, fuera del área de origen. Mucho más constructiva sería la tendencia a la asimilación de las voces necesarias, cuyo uso es normal en la otra rama del mismo árbol lingüístico.

No intento argumentar en favor de un criterio artificiosamente unificador, que suprima las variantes locales, fonéticas u ortográficas. Aun en idioma tan resistente a las metamorfosis ambientales como el castellano, algunas diferencias modales existen. Como existen, si bien en escala mayor, tanto en el inglés como en el francés. Lo que no resulta admisible es que, cuando la diversidad de matices no impide que se entiendan entre sí los practicantes de cada uno, quede oscurecido el valor de una lengua, como vehículo de relación oral y escrita, entre un grupo tan importante de países como el formado por la comunidad idiomática galaico-lusitana” 6 .

Pouco mais adiante estabelece a comparação entre a nossa língua e a espanhola:

“El castellano se habla en veinte naciones del nuevo Continente. Pero la más extensa y poblada del área ibero-americana habla portugués. Sólo el gallego puede utilizarse como vehículo para la relación con el Brasil, donde tal vez se acumula la mayor disponibilidad de recursos naturales del mundo, y tanto el nivel demográfico como el desarrollo económico adquieren aceleradamente dimensiones espectaculares. Nadie pone hoy en duda que, algún día, seguramente no muy lejano, la hegemonía económica mundial habrá de ser ejercida, o cuando menos compartida, por aquel favorecido pedazo del mundo cuya conquista inició Pedro Álvarez Cabral.

Con sólo tener en cuenta esta innegable realidad –que se viene encima de nosotros con una fuerza imponente–, hay bastante para adoptar una posición operante en relación al tema. Galicia posee una de las cuatro grandes lenguas atlánticas, difundidas desde el Mediterráneo a Filipinas” 7 .

Ainda que de passagem, comenta –com certo tom de benévola censura histórica– que os três primeiros dicionários galegos, na época moderna, tenham sido elaborados à margem da norma literária portuguesa:

“Rodríguez, Cuveiro Piñol y Marcial Valladares ordenaron los primeros diccionarios gallego-castellanos, a base de filones independientes del português, más populares que literarios” 8 .

E não deixa de condenar com energia a política linguística espanhola a respeito da Galiza e do seu idioma (o “gallego-português, lengua internacional en la historia y en la realidad, hablada por más de setenta millones de personas, repartidas en cuatro continentes”), pois, ainda que fosse só por esta categoria internacional, mereceria mais respeito 9 .

1968: um futuro galaico-português

No ano 1968 aparece, no livro colectivo O porvir da lingua galega o artigo de Paz-Andrade «A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa», a que antes me referi 10 .

Respondendo ao título do livro, Paz-Andrade, depois de analisar em pormenor os diversos aspectos da situação linguística da Galiza, pergunta-se pelo futuro:

“¿Qué camiño debe escoller Galiza para axustar a futura evolución da sua lingua?

A pregunta presupón que o porvir da nosa fala non pende somentes dos factores alleos que veñen interferindo a sua rehabilitación en cheo. ¿Non pode d-algún xeito estar recramando certa virada no rumo da política interna do idioma?

Unha é a evolución continxente que deica agora seguiu. Outra a que en adiante deba ter. Ainda que a opción non veña por primeira vez ás nosas maos, podemos estar chegando ao intre no que deba ser exercida. ¿O galego ha de seguir mantendo unha liña autónoma na sua evolución como idioma, ou ha de pender a mais estreita similaridade co-a lingua falada, e sobre todo escrita, de Portugal e-o Brasil?

Os termos da custión non deben ser tomados no senso de que o galego, pra marchar en maior irmandade formal co portugués, teña que deixar de ser o que é. Non se pretende chegar á unificación literal. Mais trátase de conter a disociación, facendo os axustes necesarios pra aproveitar as ventaxas mútuas que un intertroque permanente podería proporciar. A ninguén se lle oculta que, da parte da Galiza, hai a gañar moito mais que a perder, si a relación entre unha e outra fala se avivece e sostén” 11 .

Algum tempo depois, em carta a Emílio González López de data 10 de julho de 1969, Paz-Andrade insiste, aludindo a este artigo, sobre o seu firme convencimento da integração da Galiza no mundo lusófono:

“Supoño que terás recibido tamén, a través de Piñeiro, un libro editado pol-o Círculo das Artes de Lugo, titulado O porvir da lingua galega . Leva nas derradeiras páxinas un ensayo meu sobre o aspecto social e a proyección exterior do noso idioma. Penso que no senso de revincular cada vez mais o galego á literatura portuguesa e, mais ainda, á gran literatura brasileira contemporánea está o verdadeiro e positivo «porvir» do noso idioma” 12 .

Ernesto Guerra da Cal, em carta de data 4 de agosto de 1969 desde os Estados Unidos, felicitava Paz-Andrade por este artigo sobre a língua. Ao agradecer os parabéns na sua carta de resposta, de data 10 de setembro desse mesmo ano 1969, Valentim lamenta a cegueira de alguns intelectuais galegos:

“Deixando a un lado o cativo merecemento do meu traballo sobre a língoa, visto na sua carta coa ollada xenerosa demáis, non ten dúbida de que está no camiño certo en canto ás posibilidades de fortalecimento e de expansión. O que non ten xeito é que sexamos poucos, antre a nosa xente de letras, con algunha contribución positiva a lle dar ao problema a sua verdadeira solución. Que sorte de cegueira pode ainda hoxe, co-a mellor intención, seguir pechando as portas do idioma, abertas car-a sua máis grandiosa froración humán e literaria?

Cecais estamos diante do nô máis tolledor da cultura galega, ainda que moitos non teñan reparado n-el. Pouco poden os esforzos isolados pra lle dar outro alento a unha causa que demanda axuda de todos, mais eu teño por miña a obriga da santa teimosía. Agora recuncaréi no tratamento do problema n-unha parte que ten por título «La marginación de la lengua», incorporada ao libro La marginación de Galicia , que teño xa nas maos d-unha editora de Barcelona” 13 .

1970: La marginación de Galicia

Em 1970 apareceu La marginación de Galicia, um livro que encontrou amplo eco na sociedade galega 14 .

A segunda parte versa sobre «La marginación de la lengua», e nesta o capítulo 8 («La expansión transcontinental del idioma»: pp. 101-108) insiste sobre as ideias já expostas por Paz-Andrade nas suas publicações precedentes.

Na secção intitulada «Esquema histórico del proceso» esboça a nossa história linguística, incluindo a famosa cita do Padre Feijoo, aduzida também por Castelao em Sempre en Galiza:

“A pesar de los reveses del acontecer histórico, nunca se apagó en el país la conciencia del idioma propio. Nacido del sermo vulgaris cuando los límites de la Gallaecia romana eran las aguas del Douro, la identidad con la lengua de Portugal había de arrancar forzosamente de los orígenes.

Ni aún bajo el período de mayor depresión social y cultural de Galicia resultó oscurecida la idea de tal unidad primigenia. Las pocas figuras que descollaron sobre el nivel de su época no dejaron de proclamar ‘que el idioma gallego y el lusitano son uno mismo’. De ellas, la más autorizada y aguda, el P. Feijoo, lo hizo en términos bien explícitos.

‘... Se debe incluir la lengua gallega como, en realidad, indistinta de la portuguesa, por ser poquísimas las voces en que discrepan, y la pronunciación de las letras en todo semejante, y así se entienden perfectamente los individuos de ambas naciones sin ninguna instrucción antecedente ’” 15 .

Paz-Andrade não se limita às palavras, mas acode também à ajuda de mapas e tabelas de falantes:

“Para imprimir mayor precisión al juicio, ahora es necesario hacerlo descansar sobre el mapa. Sólo de este modo podrá obtenerse una imagen, proporcionada y representativa, del apogeo que está alcanzando la lengua de Camões y Rosalía.

El censo de la comunidad hablante se distribuye sobre tierras de cuatro continentes. Su volumen se aproxima a 120 millones de seres humanos, como en cifras redondeadas enseña el siguiente cuadro: [...]

Se comprenden, mediante estimación aproximada, cuantos hombres y mujeres se entienden o pueden entenderse sin apelar a otra lengua. El cálculo se basa en los datos disponibles en el momento actual, que no tardarán en modificar aumentativamente su magnitud.

En la escala de los grandes idiomas neo-latinos, al galaico-portugués corresponde el tercer lugar. Pero tras el inglés, con un censo de 350 millones, y del castellano, con 160, es también en importancia social el tercer sistema lingüístico de las Américas” 16

E aqui remete para o mapa que acompanha (figura 19). E prossegue aduzindo os argumentos clássicos em favor da unidade linguística:

“La circunstancia de que la evolución morfológica entre la rama gallega y la lusitana no haya sido sincrónica representa menos de lo que parece. Las desemejanzas de sones y signos que haya engendrado no restan validez a aquellas clasificaciones. Lo que realmente importa es la aptitud efectiva para la comunicación, dentro de un área extravernacular tan dilatada.

Del sector de la humanidad que comprende, 90 millones de habitantes son ciudadanos de un solo país. No sucede algo parecido con el castellano, de cuyas densidades mayores –España, México, Argentina, Colombia...– ninguna alcanza ni la mitad de aquella cifra. Tal circunstancia no es irrelevante, ni mucho menos, en el terreno cultural. Ni tampoco en el económico-social, inseparable de aquél.

Una masa que alcanzará los 130 millones de personas antes del año 2000, en marcha hacia la sociedad de alto consumo, habrá de ejercer una gravitación positiva sobre la comunidad lingüística. También la ejercerá por inducción sobre la población de los países de crecimiento retardado. A favor de los mismos estímulos juega, en este caso, otra realidad. Las desemejanzas entre el habla gallega y la del Brasil son menos apreciables. Especialmente en el idioma escrito. El ejemplo de la prosa de Guimarães Rosa, entre otros no tan al día, obra como testimonio” 17 .

“Si quisiéramos poner linderos al territorio lingüístico, básicamente uniforme, del gallego-portugués, tendríamos que situar el del Norte en Navia y el del Oeste en Corumbá, con el Atlántico en medio. El primero marca la línea de frontera en el Continente europeo. El segundo, en la de Brasil y Bolivia, con Ponta Porá en la paraguaya, marcan la misma línea en el Continente sudamericano. Más allá de una y otra raya se abren los firmes dominios del castellano.

Sin traer a colación otros espacios de la misma condición idiomática, en el que acabamos de acotar viven más de cien millones de seres humanos. El número cuenta, pero en este caso cuenta tanto la variedad étnica. [...] Por encima de sus agudas diferencias, encontramos un primer punto de entendimiento y fusión: el idioma. Los cien millones largos de seres humanos de tan heterogénea procedencia constituyen el macrocosmos hablante –y no completo– del romance evolucionado que, diez siglos atrás, Galicia desgajó del latín vulgar” 18 .

As ideias reintegracionistas de Paz-Andrade, expostas com tal convencimento por quem tinha bem provado o amor à sua língua, fizeram pensar a muitos. Deve de referir-se a este mesmo assunto a alusão que acho numa carta pouco posterior a Ramom Pinheiro.

“Do tema que escolmas aínda non está dito todo nin moito menos. Eu non sei se teréi azos ainda pra lle adicar contribucións máis folgadas e convencedeiras que as adiantadas en La marginación de Galicia e no traballo sobre a materia que reforzan as poucas ideias adiantadas.

Aínda non tuven azos pra escomenzar a tarefa sobre Guimarães Rosa. Cecais agora que vou mellor poida cun traballo que tanto me veu tentando. O libro que tuveche a xentileza de me emprestar contén, de lado brasileiro, un atisbo expreso, coincidente co meu sobre a galeguidade da lingua do xenial narrador. Foi pra min unha bela sorpresa, ainda que presentida” 19 .

Refere-se aqui Paz-Andrade ao trabalho que logo seria o seu discurso de ingresso na Real Academia Galega em 11 de fevereiro de 1978, publicado imediatamente como livro: A galecidade na obra de Guimarães Rosa (1978). 20

2) Traços reintegracionistas no seu uso da língua

Na língua usada por Paz-Andrade há indícios significativos de estar disposto a abrir caminho em direcção ao mundo luso-brasileiro, sem aguardar a ver que decidiam outros. Não podemos, porém, esperar uma praxe sistemática no seu uso linguístico: nem era filólogo (nem falta que lhe fazia ser...), nem pretenderia fazer inteiramente em solitário um caminho que em boa medida tinha algo de pioneiro. Mas precisamente por isso alguns indícios de natureza ortográfica ou gramatical ou léxica nos seus escritos possuem especial valor.

Se abrimos, por exemplo, o seu livro de poemas Sementeira do vento, publicado no ano 1968 21 , achamos traços reintegracionistas tão claros como os seguintes:

1) De natureza ortográfica:

– uso de v: lavrador (pp. 23, 56), cavalo (51, 57), treva (73)...

– uso da letra quê (qu) em qua-: quadrantes (67)...

– uso ocasional de um elemento tão característico e emblemático da ortografia portuguesa como é o dígrafo -nh-: minhotos (pág. 73) 22 .

2) De natureza morfológica:

– na selecção das variantes dialectais aceita a forma gráfica mais próxima da grafia portuguesa, renunciando à da sua fala nativa pontevedresa (apesar de ser mais comum nos escritos galegos): irmao (66) maos (62)...

– partículas: asin (66), até (61, 62)...

3) De natureza léxica:

– formas léxicas: ar (73), ceu (61), ladaíñas (53), pétalas (52)...

Em qualquer obra de Paz-Andrade podemos encontrar abundantes indícios na mesma direcção lusófona.

Por exemplo, na sua justamente famosa –e volumosa– biografia de Castelao, intitulada Castelao na luz e na sombra (1982) 23 , achamos:

con o (e não co: “Primera relación con o Centro Gallego”: pág. 255, e índice final);

– uso do ponto interrogativo somente no fim da frase (“As fadas mandan?”: pág. 399, e índice final),

asembleia (“A I Asembleia das Irmandades”: pág. 160, e índice final)...

No Epistolario (1997) antes citado achamos ao azar ideias (pág. 201), Natal (pág. 139)...

O título do livro Galiza lavra a sua imagen (1985) apresenta elementos significativos de claro sentido lusófono, e neste caso encerram pela parte do autor uma especial intenção, em quanto que o livro foi publicado em 1985, portanto depois da aprovação da nova normativa linguística pela Real Academia Galega, da qual Paz-Andrade já era membro. (É ademais o seu último livro, de modo que tem algo de testamento). Galiza, lavra, sua, imagen são formas de manifesta e consciente discrepância com a concepção que inspira essa normativa da RAG (na qual aqueles vocábulos do título assumem a forma Galicia, labra, súa, imaxe). Este gesto de liberdade crítica provocou-lhe dificuldades nas suas relações com aquela instituição: segundo a ele mesmo ouvi contar (com algo de pena mas com compreensiva benevolência...), depois disso a alguns académicos, especialmente dos directivos, parecia custar-lhes dirigir-lhe a palavra... 24 .

Conclusão

Em Paz-Andrade estão formuladas as ideias clássicas da tradição galeguista a respeito do carácter lusófono da nossa língua; podemos resumi-las em duas: a identidade idiomática substancial a ambos os lados do Minho (e do Atlântico), por cima das leves divergências fonéticas, e a importância da nossa reintegração no velho lar comum para podermos garantir a sobrevivência como comunidade falante.

E não achava melhor modo de exprimir poeticamente o seu amor à língua própria que assumindo como próprios aqueles conhecidos versos do brasileiro Olavo Bilac 25 :

Amo teu viço agreste e teu aroma

de virgens selvas e de oceano largo ;

amo-te, ó rude e doloroso idioma...

Os que defendemos estas mesmas ideias na “dura adversidade” do presente sabemos que com isso estamos também prestando uma homenagem a Paz-Andrade: ao seu magistério e ao seu exemplo vital.

Bibliografia citada

a) Escritos de Valentim Paz-Andrade (em ordem cronológica):

V[alentín]. P az Andrade, Galicia como tarea , Ediciones Galicia del Centro Gallego de Buenos Aires, Buenos Aires 1959, 176 pp. [Este livro, publicado graças aos emigrados galegos da Argentina, foi reproduzido na Galiza em capítulos pelo jornal compostelano La Noche , a partir do 3 de dezembro de 1959].

Valentín Paz-Andrade , «As formas vivas da paisaxe», em: Grial (Vigo), núm. 3 (1964), pp. 95-98.

Valentín Paz-Andrade , «El área espacial y etnológica de la lengua galaico-lusitana», em: Airiños (Gijón), julho de 1966. [Revista do Centro Galego de Gijón (Astúrias)].

Valentín Paz-Andrade , Sementeira do vento , Editorial Galaxia, Vigo 1968, 132 pp.

Valentín Paz-Andrade , «A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa», em: [ Vários ], O porvir da lingua galega , Círculo de las Artes (Instituto de Estudios, Sección de Publicaciones), Lugo 1968, 166 pp., pp. 115-132.

Valentín Paz-Andrade , La marginación de Galicia , Siglo XXI de España Editores, Madrid 1970, 360 pp.

Valentín Paz-Andrade , A galecidade na obra de Guimarães Rosa , Ediciós do Castro 1978, 232 pp. [Edição do seu discurso de ingresso na Real Academia Galega em 11 de fevereiro de 1978].

Valentín Paz-Andrade , recensão de: William Agel de Melo , Dicionário Galego-Português (Oriente, Goiânia 1979), em: Grial (Vigo) 18 (1980), núm. 69, pág. 373.

Valentín Paz-Andrade , «Castelao, forxador da lingua», em: Galicia: Revista del Centro Gallego de Buenos Aires (Buenos Aires), núm. 628 (1982), pp. 30-31.

Valentín Paz-Andrade , Castelao na luz e na sombra , Ediciós do Castro, Sada - A Corunha 1982, 640 pp. [Biografia de Castelao. Segunda edição, revista e ampliada, em 1986].

Valentín Paz-Andrade , Galiza lavra a sua imagen , Ediciós do Castro, Sada - A Corunha 1985.

Valentín Paz-Andrade , Epistolario: Edición ao coidado de Charo Portela Yáñez e Isaac Díaz Pardo , Ediciós do Castro, Sada - A Corunha 1997, 310 pp.

b) Outras obras citadas:

Benito Jerónimo Feijoo , Antología popular , Ediciones Galicia, Centro Gallego, Buenos Aires 1966.

William Agel de Melo , Dicionário Galego-Português , Oriente, Goiânia 1979.

José-Martinho Montero Santalha , «O processo de incorporação do galego à Liturgia», em: Ricardo Gurriarán (coord.), Un canto e unha luz na noite: Asociacionismo cultural en Galicia (1961-1975) , Consello da Cultura Galega, Santiago de Compostela 2012, 174 pp., pp. 105-115.

[ Vários ], O porvir da lingua galega , Círculo de las Artes (Instituto de Estudios, Sección de Publicaciones), Lugo 1968, 166 pp. [Trata-se de uma colectânea de artigos de diversos autores organizada por Xesús Alonso Montero].

1 Valentín Paz-Andrade , Epistolario: Edición ao coidado de Charo Portela Yáñez e Isaac Díaz Pardo , Ediciós do Castro, Sada - A Corunha 1997, 310 pp.

2 Sobre o grupo «Os Irmandiños», vid. José-Martinho Montero Santalha , «O processo de incorporação do galego à Liturgia», em: Ricardo Gurriarán (coord.), Un canto e unha luz na noite: Asociacionismo cultural en Galicia (1961-1975) , Consello da Cultura Galega, Santiago de Compostela 2012, 174 pp., pp. 105-115 (nomeadamente pp. 111-113).

3 [ Vários ], O porvir da lingua galega , Círculo de las Artes (Instituto de Estudios, Sección de Publicaciones), Lugo 1968, 166 pp.

4 V[alentín]. P az-Andrade, Galicia como tarea , Ediciones Galicia del Centro Gallego de Buenos Aires, Buenos Aires 1959, 176 pp.

5 Galicia como tarea (1959), pp. 138-139.

6 Galicia como tarea (1959), pp. 145-146.

7 Galicia como tarea (1959), pág. 147.

8 Galicia como tarea (1959), pág. 149.

9 Galicia como tarea (1959), pág. 153.

10 Valentín Paz-Andrade , «A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa», em: [ Vários ], O porvir da lingua galega , Círculo de las Artes (Instituto de Estudios, Sección de Publicaciones), Lugo 1968, 166 pp., pp. 115-132. Já algum tempo antes publicara na revista Airiños , do Centro Galego de Gijón, um artigo com as mesmas ideias: Valentín Paz-Andrade , «El área espacial y etnológica de la lengua galaico-lusitana», em: Airiños , julho de 1966.

11 «A evolución trans-continental da lingua galaico-portuguesa» (1968), pág. 131.

12 Epistolario (1997), pág. 194.

13 Epistolario (1997), pág. 196.

14 Valentín Paz-Andrade , La marginación de Galicia , Siglo XXI de España Editores, Madrid 1970, 360 pp.

15 La marginación de Galicia (1970), pág. 101. E em nota oferece uma referência facilmente accessível desse texto do Teatro crítico : B. J. Feijoo , Antología popular , Ediciones Galicia, Centro Gallego, Buenos Aires 1966.

16 La marginación de Galicia (1970), pp. 102-103.

17 La marginación de Galicia (1970), pp. 103-104.

18 La marginación de Galicia (1970), pág. 105. Vejam-se ainda, neste mesmo livro, as pp. 110-111, 114, 116-117, 120-121.

19 Epistolario (1997), pág. 201.

20 Valentín Paz-Andrade , A galecidade na obra de Guimarães Rosa , Ediciós do Castro 1978, 232 pp.

21 Valentín Paz-Andrade , Sementeira do vento , Editorial Galaxia, Vigo 1968, 132 pp.

22 No seu artigo «As formas vivas da paisaxe», publicado na revista Grial (Vigo), núm. 3 (1964), pp. 95-98, achamos também a forma cegonha .

23 Valentín Paz-Andrade , Castelao na luz e na sombra , Ediciós do Castro, Sada - A Corunha 1982, 640 pp.; segunda edição, revista e ampliada, em 1986; ouvi-lhe contar com emoção que escrevera algumas páginas desta obra “com lágrimas nos olhos”).

24 Também têm interesse para o nosso assunto estoutros trabalhos do escritor: Valentín Paz-Andrade , recensão de: William Agel de Melo , Dicionário Galego-Português (Oriente, Goiânia 1979), em: Grial (Vigo) 18 (1980), núm. 69, pág. 373; Valentín Paz-Andrade , «Castelao, forxador da lingua», em: Galicia: Revista del Centro Gallego de Buenos Aires (Buenos Aires), núm. 628 (1982), pp. 30-31.

25 Cita-os em La marginación de Galicia (1970), pág. 110.